domingo, 6 de abril de 2014
sábado, 11 de janeiro de 2014
Afeto, aventura e amizade
Rua Âmbar no Diário Catarinense de 11/01/2014
Breve ensaio do professor Fabiano Tadeu Grazioli ( URI)
Afeto, aventura e amizade na Literatura Infantojuvenil catarinense
Fabiano Tadeu Grazioli[1]
Rua Âmbar
(Formato, 2013) é a publicação infantojuvenil mais recente da escritora
catarinense Eloí Bocheco. Na trilha dos últimos Casa de Consertos (Melhoramentos, 2012), Tua mão na minha (Habilis, 2012) e Cantorias de Jardim (Paulinas,
2012), o livro é bem cuidado, com ilustrações primorosas de Márcia Cardeal e um
projeto gráfico adequado.
A história é dividida em treze capítulos, numerados e não titulados e se desenvolve em Mariscal, praia catarinense. Eloí recolhe elementos do dia-a-dia do lugar (ruas da referida praia, detalhes da vida dos pescadores, dos moradores, dos veranistas) e os utiliza como peças importantes no esquema narrativo que monta.
Miro, ou melhor, Valdomiro
Silveira, o protagonista da história é um menino que vive a infância com
intensidade. Quando se apresenta aos
amigos veranistas diz que “o pai é Leopoldo e trabalha na pesca, a mãe é Inês e
vende peixes, que mora na rua Ametista, estuda no terceiro ano, adora a rua
Âmbar e faz miniaturas de latinhas” (p. 34).
Mas o que significa viver a
infância com intensidade, no caso de um menino filho de família simples, e
quase sem amigos? Significa ter tempo e espaço para brincar. Os pais de Miro têm
noção da importância que o brincar criativo tem na vida do menino. Isso fica
evidente em vários episódios da história, mas, em especial, no capítulo quatro,
quando Miro abandona o trabalho de limpar peixes e sai, a mando do pai para
brincar: “Em geral o pai lhe dá uma tainha e uma anchova para limpar, às vezes,
dois ou três peixes pequenos. Em seguida diz que já pode ir brincar” (p.9); e
quando a mãe compara o brincar ao trabalho das abelhas: “- Olhe ali as abelhas
no canteiro de cravinas, colhendo néctar. Criança brincando é abelha colhendo
néctar. Brincadeira é néctar armazenado na alma”(p.9). Os pais de Miro, ao
compreenderem a importância do brincar na vida do filho oferecem ao menino o
ambiente facilitador para a brincadeira. Proporcionar tal ambiente é, para
Marina Marcondes Machado (2004), função dos adultos em relação às crianças.
O espaço que o menino possui para brincar é a própria Mariscal, com suas ruas, casas, árvores, areia e mar. O personagem transita livremente pelos vários lugares da praia. Leopoldo e Inês compreendem que “uma criança livre, feliz, brinca quando come, sonha, quando faz seus pequenos discursos poéticos” (MACHADO, 2004, p. 19).
Quem acompanha a narrativa de
Eloí percebe que brincar é produzir, fabricar, criar, e que essas experiências
tornam lúdico o olhar de Miro para o mundo. É a partir deste olhar que o menino
filtra a vida que lhe cerca.
Já no início da história, o leitor é informado que Miro possui uma habilidade interessante: fabrica miniaturas de objetos com latinhas de refrigerante. A “fábrica”, como são chamadas as duas caixas de madeira onde guarda seus materiais fica “localizada em um endereço de acesso restrito. E mais, Miro dorme em cima da fábrica. Ou melhor dizendo, ele dorme e acorda em cima dela, por que ela fica debaixo da cama dele” (p. 5). A imaginação de Miro somada à força do maravilhoso na história, resulta em cenas nas quais, curiosamente, os objetos guardados embaixo da cama conversam.
Catar e saborear pitangas pretas é uma das atividades preferidas do menino. Mas sabe que deve se apropriar somente das que ficam do lado de fora dos muros das casas. Ensinamento do pai Leopoldo, por quem Miro tem carinho e afeto especial. Miro admira o pai pescador, ao mesmo tempo que lamenta a vida sofrida que ele leva:
“-Por que não larga a vida no mar e vai fazer
outra coisa, pai?
- Sou um homem do mar. Devo ter sido peixe em
outra vida.
(...)
- Você nunca passeia, nunca se diverte, pai.
- Minha diversão é por meu barco no mar.
- Mas por causa do sol e da água salgada seu
rosto está todo franzido.
- Filhos do mar, feito eu, ficam assim mesmo,
Miro (p. 12).
O protagonista não deseja ser
pescador como o pai. Mas possui “alma de peixe”, como ele, e por isso projeta para
si uma profissão parecida:
“-
Quero trabalhar no mar, mas não como pescador. Quero ser um pesquisador, um
estudioso de tudo o que existe no fundo do mar.
- Gostei dessa ideia.
- Aí eu também serei um homem do mar feito
você” (p. 12).
A estima pelas profissões do mar é
a manifestação do desejo de Miro em ser como o pai. Não quer ser pescador, mas
alguém instruído, “um homem do mar com diploma”, como brinca Leopoldo. A paixão
pelo mar uniria assim, pai e filho.
É na Rua Âmbar que grande parte da história acontece. Os melhores pés de frutas estão na Âmbar. A casa do poço, a mais misteriosa da região, também. Trata-se de uma casa abandonada, que Miro tentou conhecer três vezes e só na quarta vez teve coragem suficiente para entrar. Em um quarto encontrou uma formiga ruiva falante, que por sinal, já conhecia sua fábrica. No outro quarto encontrou um armário de onde saiu uma cobra azul-turquesa. Conversando com a cobra ficou sabendo que ela tinha nascido gaivota e se transformado em galho de árvore, pedra, chapéu, carta de baralho... No terceiro quarto encontrou uma tainha com lindas escamas reluzentes. Em seu cesto a tainha guardava miniaturas de lata que haviam sumido do quarto de Miro. “Disseram que foram dar uma volta na Rua Âmbar e não acharam mais o caminho de volta” (p. 23), explicou a tainha. Saindo da casa, Miro encontra uma bruxa da Costa Esmeralda que veio buscar água do poço para seus trabalhos de magia.
A narrativa de Eloí lembra o mestre Lobato, já que a autora anula as fronteiras entre a vida real, conhecida de perto pelo leitor, e o espaço do maravilhoso, que é próprio da Literatura para crianças. Sobre essa ocorrência em Lobato, Nelly Novas Coelho afirma: “Suas histórias não decorrem em nenhum reino maravilhoso, fora do tempo e espaço históricos (...). Pelo contrário, todas as situações que estruturam as efabulações de cada livro radicam-se no mundo cotidiano, familiar ao dia-a-dia da meninada” (2006, p. 642). Neste ambiente conhecido e comum, “surge, de repente, um elemento estranho, pertencente ao reino do imaginário, do sonho ou da fantasia. Mas devido à naturalidade com que esse elemento estranho passa a integrar o natural, ambos se igualam ou se identificam como possibilidade de existência (2006, p. 642).
Em Rua Âmbar, Eloí se utiliza do mesmo recurso. As miniaturas de latinha e demais objetos que
conversam entre si; a formiga-ruiva e a tainha de lindas escamas, ambas
falantes; a cobra azul turquesa que se transforma no que quiser; a bruxa da
Costa Esmeralda, entre outros elementos, são próprios da fantasia, surgem
naturalmente na história e se somam aos eventos cotidianos vivenciados por
Miro, promovendo a fusão entre mundo real e imaginário.
É na Rua Ambar que Miro conhece os únicos amigos com quem ele vai se relacionar na história: Matita, Quim e Isa. São veranistas, moram em Jundiaí/SP e o pai deles comprou a casa 109. Os quatro vivem aventuras ciceroneados por Miro, que lhes apresenta a rua e a casa do poço.
A notícia da morte de seu Leopoldo pegou todos de surpresa. “O barco bateu nas pedras e afundou. Ninguém escapou” (p. 46). Miro sofre muito com a partida do pai. E agora, como iria ser? E quando os peixes da peixaria acabassem, o que a mãe faria? ‘’Se ela dizia que ia dar um jeito, então é porque ia mesmo. Ela era uma mulher de confiança” (p. 48).
No último dia do veraneio de seus amigos, Miro é convidado por eles para plantar um pé de ingá no pátio da casa 109. A árvore era uma homenagem a Seu Leopoldo. Miro imagina que o pai ia gostar da homenagem. Ele se deu conta de que, curtido de sol e da água salgada do mar, o pai fora se tornando parecido com um tronco de árvore. No dia seguinte, após o café, o protagonista vai até a casa dos amigos para se despedir. Presenteou-os com um barquinho, um jarro de lata e uma estrela do mar. Voltariam no próximo janeiro, e isso deixava Miro feliz.
Na obra em questão, conhecemos uma Eloí diferente daquela que diversas vezes já encontramos, cuja matéria prima para a criação literária são as memórias da infância. Em Rua Âmbar, Eloí se mostra capaz de mergulhar na infância dos meninos da atualidade e de utilizar elementos que não lhe cercaram na sua época de criança, como a praia, o mundo dos pescadores e a vida dos veranistas. Mas não deixa de emprestar a Miro o olho da menina curiosa e atenta que imagino que ela foi e que ainda é. Aos olhos de Miro, nada passa despercebido na Rua Âmbar, qualquer novidade é notada, por mais miúda que seja.
O texto da obra é fluente e com linguagem acessível a partir do Leitor em Processo. Leitura envolvente. Desejo que muitos leitores encontrem com Miro e passeiem pela Rua Âmbar. Nas escolas, nas bibliotecas, nas rodas de leitura, nas sessões de leitura literária nas escolas, enfim, onde estiverem leitores curiosos e sensíveis, ali Rua Âmbar pode figurar com majestade.
Referências
MACHADO,
Marina Marcondes. A poética do brincar.
São Paulo: Loyola, 2004.
COELHO, Nelly Novaes. Dicionário crítico da literatura infantil/juvenil brasileira. São Paulo: Editora Nacional, 2006.
[1] Mestre
em Estudos Literários. Professor de Literatura Infantojuvenil da Faculdade
Anglicana de Erechim/RS.
sábado, 4 de janeiro de 2014
Memórias, Lembranças e Afetos
Resenha
(Neide Medeiros Santos – Crítica literária FNLIJ/PB)
Nós não somos os criadores de nossas ideias, mas apenas seus porta-vozes; são elas que nos dão forma... e cada um de nós carrega a tocha que no fim do caminho outro levará. (Carl Gustav Jung. Memórias, Sonhos, Reflexôes)
Na literatura infantil, encontramos muitos autores que escrevem sobre a infância e se utilizam de artifícios que procuram esconder o caráter autobiográfico do livro. Dentro desse universo, citamos Marcus Accioly e o livro “Guriatã: um cordel para menino”. Somente descobrimos que é um relato da sua própria infância quando lemos as Notas que aparecem após o longo poema. .
De Eloí Bocheco, recebemos “Tua mão na minha” (Ed. Habilis, 2012), com ilustrações de Walter Moreira Santos. A autora afirma que esta história foi “brotada dos desvãos da memória afetiva e das mais caras lembranças de minha infância no campo.”
A menina Dúnia é a protagonista da história, todos os dias vai buscar água no poço. Ela mora distante e é necessário fazer pausas para descansar, o balde é muito pesado. No caminho entra na casa da avó, dá-lhe um beijo e um abraço e volta logo, ela tem pressa. Essa caminhada do poço até a casa da mãe é motivo para devaneios – ela brinca com a água, traz pedrinhas do fundo do poço e peixinhos dourados nadam na água do balde.
Há certos serviços domésticos que Dúnia não gosta de fazer – varrer o terreiro, lavar a louça do café. Nessas ocasiões, esconde-se numa pitangueira. De buscar água, ela gosta. O caminho é tão bonito! Pra lá da ponte fica a mata e mata tem seus encantos – lá mora o Boitatá, a Moça-da-lua, o Pé-de pedra e outros seres encantados.
Um dia a menina não veio buscar água no poço, passaram-se muitos dias, nasceram dias bonitos, de muito sol e brisa suave e nada da menina aparecer. O tempo mudou, chegou o verão, o inverno. Certo dia Dúnia apareceu, vinha triste e sem o balde. Sentou-se em uma pedra e ficou quietinha, um bem-te-vi cantou e ela não ouviu, deitou-se na grama e deixou-se ficar com os olhos fixos no céu. Lembrou-se da mãe. Onde estaria?
A avó explicou que o trabalho da mãe agora era cuidar das aves celestes. Como a menina desejou ter asas para voar, ir até o céu e encontrar com sua mãe! A avó ainda dizia que a mãe se tornou eterna, não podia mais voltar. A menina também queria virar eterna.
Para entender melhor a história da menina Dúnia, vamos transcrever o que disse a autora na orelha do livro:
“A história de Dúnia surgiu da lembrança dos rituais de carregar água das fontes para as moradias, no campo, no século passado. As crianças faziam da “estrada da fonte”
um caminho mágico, de brincadeiras e encantamentos. Nas pausas para descanso, a imaginação tomava conta de tudo e era possível viajar para longe nas águas do “rio de balde”, ou inventar inusitados brinquedos com os vultos da paisagem, enfeitiçados pela fantasia.”.
Em “Guriatã: um cordel para menino”, o personagem Leunam morre e se transforma em passarinho; em “Tua mão na minha”, a mãe de Dúnia morre e vai cuidar das aves celestes.
O pássaro, com seu voo, seu desaparecer repentino, sua vida efêmera, sua plumagem e seu canto associa-se muitos vezes à morte. Vale lembrar versos do poema de Manuel Bandeira, “Preparação para a morte”:
Cada pássaro,
Com sua plumagem, seu voo, seu canto,
Cada pássaro é um milagre.
Com relação às ilustrações deste livro, Walter Moreira Santos, assim se expressou:
“Há 11 anos escrevo e ilustro para crianças, mas sabe de uma coisa? Quando li esta história mágica de Eloí Bocheco, fiquei tão encantado que tive receio de ilustrá-la, temendo que talvez minhas imagens não ficassem à altura do texto”.
Dividido em pequenos capítulos não numerados, este livro de Eloí Bocheco se inscreve no reino da prosa poética. Cada parágrafo é um convite à poesia.
Carinhos poéticos:

Onde encontrar Tua Mão na Minha:
amalivros@hotmail.com - Fones: (051 3557 4125) (051 9954 1950) (051 9952 6320) Rua Leopoldo Froés n. 109 - Bairro Floresta - Porto Alegre - RS
segunda-feira, 18 de novembro de 2013
Uma escola onde circula poesia....
Fotos que me enviou a Escola Josefina Caldeira de Andrade, de Videira/SC. Leitura do livro Cantorias de Jardim - interações com o poema Onde Está a Margarida? (P. 9)
Professora: Lenecir Piovesan Hoffelder
Professora: Lenecir Piovesan Hoffelder
A passagem do poema para o papel pardo é um modo delicado de trazer o poema para perto do coração poético. Na sequência, as quadrinhas criadas pelas crianças.
Recriação em outra linguagem - poesia-brinquedo
Declamando o poema em grupo... vozes e afetos.
O poema no quadro de giz... Mais um exercício de trazer o poema para perto do coração poético. A mão da professora transcreve o poema, toca as palavras - momento de vida feita à mão.... Amei!
Poema brincado, poema recriado! Com humor e muita graça!
quinta-feira, 19 de setembro de 2013
Se esta rua, se esta rua fosse minha....
Para formular a matéria, a jornalista me enviou uma pequena entrevista, que transcrevo abaixo. Ela contou que leu o livro com seu filho de 9 anos e os dois curtiram muito o passeio pela Âmbar. Adorei saber que meu livro caiu nas mãos de uma jornalista, grande leitora, e mãe-leitora.
Edinara -
De onde e quando surgiu a inspiração para a história do Miro e suas criações?
Eloí - Certa vez, vi uma matéria na tv sobre um menino que fazia miniaturas de
latinhas recicláveis. O menino era encantador e suas criações eram perfeitas.
Nunca mais esqueci a cena do garoto
fabricando minúsculos objetos,
todos irretocáveis. De um certo modo, Miro – Valdomiro Silveira – personagem de
Rua Âmbar, surgiu dessa lembrança que ficou gravada na memória. Inventar o personagem foi o primeiro passo. Depois, Miro
toma posse da história e puxa o carro da fantasia, dando voz lírica às miniaturas que inventa, ou explorando os
recantos mágicos de sua rua de infância.
Edinara -
Rua Âmbar tem uma mistura de vários elementos que encantam crianças (e adultos):
miniaturas, mar, casas mal assombradas, bichos falantes, perda... Foi
proposital essa junção?
Eloí - Não foi planejado, mas acabou acontecendo de
se juntarem no mesmo movimento coisas que me encantam, como miniaturas de
objetos, casas mal assombradas, bichos que falam nas histórias, ruas da
infância, o mar da costa esmeralda de
SC. A dor da perda é um sentimento que me toca muito. É
um tema tão humano e inevitável. Em Rua Âmbar e em outros livros que escrevi (
Tua Mão na Minha, Beatriz em Trânsito, Casa de Consertos) acontecem perdas e os
personagens têm que lidar com elas como podem. No caso de Miro, a fantasia o auxilia na acomodação da dor para a vida
brotar de novo e prosseguir, apesar do sofrimento causado pela perda do pai.
Edinara - Apesar
de se tratar de uma ficção, você usou uma localidade real de Santa Catarina. Há
algum motivo em especial, além do fato de estar na cidade onde mora?
A Rua Âmbar existe, sim, mas não da forma descrita no livro. É uma rua do mundo real, mas, reeencantada, digamos assim. Passada pelo sonho, pela imaginação e apresentada em “outro estado” - não mais no “estado” de todos os dias.
Donde se
conclui que, doravante, a Rua Âmbar, em Mariscal, tem duas vidas: uma real e
outra de sonho. “O que é de verdade, para ter graça, tem de ser sonhado” –
dissera a Miro a moça da casa creme, P.6
Edinara - Como surgiu a parceria com a ilustradora Márcia Cardeal? Já haviam trabalhado juntas antes?
Eloí - Há muito tempo eu acalentava o sonho de fazer um trabalho com Márcia Cardeal e a oportunidade chegou quando a editora Saraiva/Formato me pediu a indicação de um ilustrador de Santa Catarina para ilustrar Rua Âmbar. Indiquei vivamente o nome de Marcia Cardeal e, para minha alegria, a indicação foi aceita.
Márcia veio em minha casa ( uma honra enorme) para
conversarmos sobre as ilustrações e
fomos a Mariscal fotografar o cenário da obra. Uma visita emocionante, mágica e
inesquecível, que marcou para sempre a história deste livro.
A parceria
com Márcia Cardeal foi maravilhosa e o
resultado pode ser conferido
“passeando” pela Rua Âmbar ( a de sonho).
São bruxas em contextos diferentes. Ambas no pleno exercício de suas bruxidades. A bruxinha Elisa é uma bruxa-menina, bruxa-criança, moradora da mata funda. A bruxa da costa esmeralda é uma bruxa do mar – diferente, em alguns pontos, das bruxas ditas “normais” ou tradicionais. É uma bruxa “misturada” – com o bem e o mal tramando nas entranhas. Sua passagem pela Âmbar é rápida, contudo, ajudou a compor o movimento na casa assombrada e deixou Miro bastante impressionado, por já tê-la visto num livro antigo sobre bruxas da costa esmeralda.
quarta-feira, 28 de agosto de 2013
Uma história de pertencimento e memória
Miro – Valdomiro Silveira – é dono de uma "fábrica" de miniaturas, feitas com latinhas recicláveis. A fábrica toda cabe em duas caixas, que o menino guarda embaixo da cama. Inventar as miniaturas, a partir das latinhas, é uma grande felicidade para Miro. Ele é capaz de passar horas trabalhando nas peças para deixá-las irretocáveis.
Num segundo movimento de criação, ele promove o encantamento das miniaturas. Com o sopro da imaginação, anima os objetos criados e lhes imprime vida própria. De posse dessa vida poética, as miniaturas conversam e tramam histórias sobre si mesmas e sobre seu criador.
Há um bule que já morou no fundo do mar, um jarro que vivia bordado em uma cortina, uma concha que foi um pensamento do Miro que caiu no mar e virou concha, uma mala que pertenceu a um colecionador de sombras, a um pesquisador de suspiros de jardim, a um capturador e assoprador de palavras, dentre outros donos ( a mala só não carregou roupas).
Quando Miro enfrenta a perda do pai, em um naufrágio no alto-mar, as miniaturas participam como coadjuvantes simbólicas na elaboração do sofrimento e da saudade do menino.
As conversas entre as miniaturas sempre são interrompidas pelo grito da realidade que vem por meio da mãe, chamando-o para as lidas do cotidiano : “Mirooooo, desça, o café tá na mesa!” “Miroooo, venha ajudar seu pai”... Miroooo, fiz queijadinha...” Mirooooo, teus amigos estão aqui!”...
As miniaturas são apenas uma parte das vivências mágicas do livro. Miro mora na Rua Ametista, porém, a rua preferida dele é a Âmbar.
A Âmbar tem as frutas mais doces do bairro, a casa assombrada onde moram a tainha, a cobra que passa a vida se transfomando em “outros” para fazer a experiência da outridade, a formiga que queria cantar como uma cigarra, a rã que queria namorar um cachorro, e a bruxa da costa esmeralda – uma bruxa diferente e no exercício pleno de sua bruxidade. Também ficam na Âmbar a casa 109, dos amigos Quin, Isa e Matita, e a casa creme da moça que ajudou Miro a se alfabetizar.
Rua Âmbar é uma história de pertencimento e memória. Miro poderá se mudar de Mariscal, um dia, mas levará a Âmbar para onde for. Será sempre o chão sagrado que ele vai pisar para sempre, “pois levamos as ruas, as casas, as paisagens de nossa infância para onde quer que formos”.
Onde encontrar: http://www.livrariasaraiva.com.br/
Blog do livro RUA ÂMBAR:
http://livroruaambar.blogspot.com.br/
sexta-feira, 26 de julho de 2013
"Roda vida, roda viva, roda pião"...
Os músicos Bruno Andrade Fachin e Priscila Schaucoski musicaram o poema UNI...DUNI...TÉIA, que faz parte de meu primeiro livro editado. O poema Uni..Duni..Téia foi escrito em homenagem à minha sobrinha Araceli ( Téia* para os íntimos) no dia em que ela partiu de sua cidade natal para outra localidade.
Passaram-se quinze anos desde então. Téia cresceu, casou-se e teve dois filhos. Hoje em dia, lê para os filhos o poema que foi inspirado em um acontecimento de sua infância. Uma escritura que curti muito, uma lembrança que me marcou para sempre.
Para ouvir o poema musicado, siga o link:
https://sites.google.com/site/tudopoetico/system/app/pages/admin/attachments?pli=1
*Téia - com acento
segunda-feira, 24 de junho de 2013
Memória, Lembranças, afetos

Resenha
(Neide Medeiros Santos – Crítica literária FNLIJ/PB)
De Eloí Bocheco, recebemos “Tua mão na minha” (Ed. Habilis, 2012), com ilustrações de Walter Moreira Santos. A autora afirma que esta história foi “brotada dos desvãos da memória afetiva e das mais caras lembranças de minha infância no campo.”.
A menina Dúnia é a
protagonista da história, todos os dias vai buscar água no poço. Ela mora
distante e é necessário fazer pausas para descansar, o balde é muito
pesado. No caminho entra na casa da avó,
dá-lhe um beijo e um abraço e volta logo, ela tem pressa. Essa caminhada do
poço até a casa da mãe é motivo para devaneios – ela brinca com a água, traz
pedrinhas do fundo do poço e peixinhos dourados nadam na água do balde.
Há certos serviços domésticos que Dúnia não gosta de
fazer – varrer o terreiro, lavar a louça do café. Nessas ocasiões, esconde-se
numa pitangueira. De buscar água, ela gosta. O caminho é tão bonito! Pra lá da
ponte fica a mata e mata tem seus encantos – lá mora o Boitatá, a Moça-da-lua,
o Pé-de pedra e outros seres encantados.
Um dia a menina não veio buscar água no poço, passaram-se muitos dias, nasceram dias bonitos, de muito sol e brisa suave e nada da menina aparecer. O tempo mudou, chegou o verão, o inverno. Certo dia Dúnia apareceu, vinha triste e sem o balde. Sentou-se em uma pedra e ficou quietinha, um bem-te-vi cantou e ela não ouviu, deitou-se na grama e deixou-se ficar com os olhos fixos no céu. Lembrou-se da mãe. Onde estaria?
A avó explicou que o trabalho da mãe agora era cuidar das
aves celestes. Como a menina desejou ter asas para voar, ir até o céu e
encontrar com sua mãe! A avó ainda dizia que a mãe se tornou eterna, não podia
mais voltar. A menina também queria virar eterna.
Para entender melhor a história da menina Dúnia, vamos
transcrever o que disse a autora na orelha do livro: “A história de Dúnia surgiu da lembrança dos rituais de carregar água das fontes para as moradias, no campo, no século passado. As crianças faziam da “estrada da fonte” um caminho mágico, de brincadeiras e encantamentos. Nas pausas para descanso, a imaginação tomava conta de tudo e era possível viajar para longe nas águas do “rio de balde”, ou inventar inusitados brinquedos com os vultos da paisagem, enfeitiçados pela fantasia.”.
Em “Guriatã: um cordel para menino”, o personagem Leunam
morre e se transforma em passarinho; em “Tua mão na minha”, a mãe de Dúnia
morre e vai cuidar das aves celestes.
O pássaro, com seu voo, seu desaparecer repentino, sua
vida efêmera, sua plumagem e seu canto associa-se muitos vezes à morte. Vale
lembrar versos do poema de Manuel Bandeira, “Preparação para a morte”: Cada pássaro,
Com sua plumagem, seu voo, seu canto,
Cada pássaro é um milagre.
Com relação às ilustrações deste livro, Walter Moreira
Santos, assim se expressou:
“Há 11 anos escrevo e ilustro para crianças, mas sabe de
uma coisa? Quando li esta história mágica de Eloí Bocheco, fiquei tão encantado
que tive receio de ilustrá-la, temendo que talvez minhas imagens não ficassem à
altura do texto”.
Dividido em pequenos capítulos não numerados, este livro
de Eloí Bocheco se inscreve no reino da prosa poética. Cada parágrafo é um
convite à poesia.
terça-feira, 21 de maio de 2013
Confrontando a dor da perda - o auxílio da imaginação poética
Em uma antiga brincadeira infantil, a menina
Dúnia encontra um modo de elaborar a dor e o desamparo de uma grande
perda. Descobre que podia continuar
brincando o jogo infantil que aprendera com a mãe, que partiu. Brincaria pela
mão da avó que transmitira a brincadeira
à família. A personagem tira do imaginário o ponto de apoio para continuar
caminhando porque a vida e o jogo Tua mão
na minha continuam, apesar de tudo.
Uma história sobre o poder de cura das palavras brotadas da imaginação e dos afetos.
Uma história sobre o poder de cura das palavras brotadas da imaginação e dos afetos.
A história de Dúnia surgiu da
lembrança dos rituais de carregar água das fontes para as moradias, no
campo, no século passado. As crianças faziam da “estrada da fonte” um caminho
mágico, de brincadeiras e encantamentos. Nas pausas para descanso, a imaginação
tomava conta de tudo e era possível viajar para longe nas águas do “rio de balde,” ou inventar inusitados
brinquedos com os vultos da paisagem, enfeitiçados pela fantasia.
Em
dias de grandes sofrimentos e perdas, a “estrada da fonte” transformava-se num
refúgio poético ao relento, e auxiliava
no espairecimento e na acomodação da dor
para que a vida pudesse prosseguir e brotar outra vez, como brotava a mina
d´água.
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