sexta-feira, 8 de março de 2013

Entrevista com Sônia Zanchetta


 
Por Jacira Fagundes
Coordenação conjunta com Christian David
AEILIJ –  Regional RS
Publicada no Boletim da AEILIJ, na edição de novembro de 2011


                             Uma entrevista que vale a pena conferir!



Jornalista formada pela PUC/RS e produtora cultural,  Sônia Zanchetta integra a comissão executiva da Feira do livro de Porto Alegre desde 1997. Coordena a área Infantil e Juvenil e o ciclo  A Hora do Educador do evento, além da área internacional. Sua equipe se ocupa, ainda, dos programas  Adote um Escritor ( parceria SMED Porto Alegre), Lendo pra Valer ( parceria Secretaria de Estado da Educação) e Fome de Ler ( parceria cursos de Letras ULBRA  Guaíba e Canoas, prefeituras de Canoas e de doze municípios da Região Centro-Sul do Estado e Rede ULBRA de Escolas).
 

AEILIJ – Sônia, fale um pouco sobre esta paixão que te impulsiona para toda uma dedicação e empenho nas ações voltadas à literatura infantil e infantojuvenil  no Estado.
Sônia Zanchetta -  Minha paixão pela leitura e pela literatura começou cedo, antes mesmo de eu ir à escola, pois tive a sorte de vir ao mundo em uma família que dava valor aos livros.
Minha mãe havia guardado, “para quando tivesse filhos”, duas preciosidades: a coleção completa de Monteiro Lobato  e os 18 volumes do Thesouro da Juventude. Apesar da ortografia ultrapassada, li e reli inúmeras vezes todas as histórias daqueles livros. E isso não me dificultou em nada a aprendizagem da Língua Portuguesa; ao contrário, fez com que passasse a amar a leitura e a escrita. Por isto, não consigo aceitar que livros sejam triturados ou doados para reciclagem cada vez que há uma reforma ortográfica.
Meu pai, que havia frequentado a escola por apenas três anos, redescobriu o prazer da leitura junto conosco, quando começou a febre das enciclopédias. Passava horas mergulhado naqueles livros e, de vez em quando, levantava os olhos e nos chamava para contar algo interessante que acabara de descobrir. Ali estava a prova de que uma pessoa que sai da escola plenamente alfabetizada pode seguir aprendendo por conta própria até o fim de seus dias.


AEILIJ – Tens encontrado, com certeza, alguns desafios no desenvolvimento de projetos que visam incrementar a leitura entre crianças e jovens. Dentre eles, qual o maior desafio?
SZ – Creio que o maior desafio está,  justamente em se promover a valorização da leitura no imaginário coletivo. Quando a família, a escola, o poder público e a sociedade como um todo entendem a importância da leitura, a coisas começam a andar.
Através do meu trabalho na Câmara Rio-Grandense do livro, tenho acompanhado vários programas e projetos de leitura desenvolvidos no Estado. Não conheço nenhum caso em que o começo tenha sido fácil. Em termos gerais, é preciso muita persistência e uma grande capacidade de persuasão para fazer um gestor público destinar verbas em volume suficiente para esta área.
Menos mal que esta situação começa a se reverter em vários municípios gaúchos, que construíram políticas públicas claras e consistentes para o livro e a leitura, tornando-se referência em nível nacional.


AEILIJ – E na Feira do Livro de Porto Alegre que acontece a cada ano, na área infantil, podes citar as questões mais desafiadoras?
SZ – Um dos maiores desafios que a equipe da Área Infantil e Juvenil enfrenta é o de sensibilizar para que a Feira seja compreendida como o ponto culminante, mas não final, de um processo sério e contínuo de formação e qualificação de leitores. Ao agendarem suas turmas para encontros com escritores e ilustradores de LIJ, os professores assumem o compromisso de promover a leitura prévia de ao menos uma obra de sua autoria por todos os alunos e por todos os adultos que os acompanharão na visita à Feira.
A feira é a grande festa do livro. Além de participarem das atividades oferecidas pela programação, as escolas encontram, ali, espaço para mostrar o trabalho desenvolvido, ao longo do ano, nas áreas da leitura e da escrita. Para acolher esta produção, foram criados o teatro Território das Escolas; o Largo da Escrita, onde ocorrem sessões de autógrafos, e a Vitrina da leitura, que dá visibilidade a projetos que se destacam por sua consistência, constância e caráter inovador. Há escolas que levam à Feira centenas de membros da comunidade escolar, o que é fundamental para reforçar a importância da leitura no contexto familiar. Mas é preciso, também, qualificar os professores como leitores e mediadores da leitura.  Com este objetivo, a CRL realiza ou apoia a realização, ao longo do ano, de vários encontros que têm sua culminância na Feira, com o ciclo A Hora do Educador. Este ano ( 2011) estão previstos nove seminários, além de várias oficinas e palestras independentes.


AEILIJ – Consideras que as novas tecnologias ajudam ou afastam os pequenos e os jovens da leitura? Onde, na tua opinião, é possível a leitura se coadunar às novas tecnologias ou, se for o caso, prevenir o afastamento?
SZ – Embora o livro de papel continue sendo o único suporte de leitura em boa parte das escolas brasileiras e tudo indique que terá uma longa vida, é essencial que os professores se preparem para tirar proveito das novas tecnologias, que tanta curiosidade despertam entre seus alunos.
Não basta equipar as escolas com laboratórios de informática, telecentros ou salas de aula do futuro. É preciso romper a resistência de muitos professores com relação a seu uso, fazendo com que se conectem ao tempo de seus alunos. Só assim poderão fazer a mediação necessária para que seus alunos se tornem aptos não só a consumir, mas também a criticar e a produzir conteúdos digitais.


AEILIJ – Vimos acompanhando expressivo aumento do número de obras direcionadas à infância e juventude no âmbito da literatura gaúcha. Até onde tal fato é promissor e significativo de qualidade?
SZ – A LIJ  produzida no RS deu um salto de qualidade incontestável nos últimos tempos. Autores gaúchos de LIJ circulam com desenvoltura nos grandes eventos literários do país; tem obras selecionadas pelo PNBE e por outros programas de aquisição; conquistam prêmios importantes, espaços na mídia especializada e nas estantes das megalivrarias.
Há algum tempo, podemos observar na Área Infantil e Juvenil da Feira do Livro de Porto Alegre a atuação de “olheiros” de editoras do centro do país, que vem conhecer de perto os nossos autores.
Mas é essencial que as escolas adotem critérios claros para a aquisição de acervo e adoção de obras a serem lidas por seus alunos, pois,  nestes tempos em que é tão fácil publicar um livro, abundam também os textos de baixa ou nenhuma qualidade literária.
AEILIJ – Neste momento profícuo para a literatura infantil e infanto-juvenil, vês visibilidade para os novos – tanto escritores como ilustradores?
SZ – Aqui no Sul há poucas editoras que apostam na publicação de LIJ com recursos próprios, o que dificulta  a entrada de novos autores no mercado e, no caso das obras publicadas de forma independente, mesmo que seja incontestável sua qualidade, a distribuição costuma ser bastante difícil. No entanto, temos o exemplo de autores que surgiram através de concursos literários ou que construíram sua reputação literária na internet e, só depois de terem conquistado uma legião de leitores, foram em busca de uma editora ou publicaram um livro de forma independente. Oficinas literárias ministradas por grandes escritores, como Luiz Antônio de Assis Brasil e Charles Kiefer, entre outros, também têm contribuído de forma decisiva para o surgimento e a qualificação de autores no RS. Atualmente contamos com excelentes ilustradores no RS, mas, também no seu caso, o começo não é fácil, sobretudo pela escassez de editoras especializadas em LIJ.


AEILIJ – Ainda, no que se refere à obra literária de qualidade, como vês a atual profissionalização de escritores e ilustradores? A AEILIJ pode auxiliar na profissionalização destes autores de texto e ilustração? De que maneira?
SZ – A AEILIJ vem colaborando para a profissionalização de escritores e ilustradores associados ou não, através da promoção de debates e reflexões sobre a questão da produção e da leitura de LIJ. É o caso do seminário POR UM ESPAÇO ESPECIAL PARA A LITERATURA NA ESCOLA, que terá sua terceira edição de 8 a 10 de novembro, na 57ª Feira do livro de Porto Alegre.
Mas,  no RS, e provavelmente em vários outros estados, seria importante que a entidade pudesse promover, também, oficinas de criação, ministradas por ilustradores ou escritores de renome, visando a profissionalização  de novos autores.

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

Quando a imaginação dá as tintas....

                                                         

 A menina que podia voar 
 Vinicius Linné  ( Habilis, 2012)


  Em A menina que podia voar, o autor, Vinicius Linné, surpreende já na dedicatória:“para uma borboleta, uma mariposa e um mandarim”.
A história é narrada, ou melhor, cacarejada por uma galinha mais velha às galinhas mais moças.  Não se trata, contudo,  de uma história sobre  galinhas, mas sobre gente.
A menina que podia voar e um dia voou,  é aluna de uma professora autoritária, que separou a classe em “aviões”, “carros” e “carroças”, outro nome para fortes, médios e fracos.   Estigmatizada como lenta porque não atende às expectativas da professora, a menina e seu amigo, também tido como lento, sentam-se na última fila e, deles,  nada espera a “mestra”.
De tanto ouvir que é lenta, a menina incorpora essa imagem. Porém, ela tem à sua disposição os campos  imensos  da imaginação. Nesse território de liberdade, o estigma não a alcança.  Levada pelo vento, voa para muito longe do chão. Entre passarinhos e borboletas brinca de esconde-esconde, pega-pega e passa-anel. Chega à fábrica de tinta das nuvens e recolhe tintas de todas as cores. Quando volta à terra pede à  madrinha para pintar um retrato dela, da  menina, com as tintas que trouxera do céu.  Mas a madrinha não acreditou nos voos da menina e nem  que as tintas que trouxera eram tintas celestes.
Perante a madrinha não conseguiu voar. Mesmo que voasse, ao que tudo indica,  a mulher não enxergaria, pois tem o  olhar viciado na rotina, pouco afeita a voos e sobressaltos. Porém,  a sós com sua imaginação, a menina voou e brincou de viver em outros mundos, onde o que é tocado pela linguagem se transforma em possibilidade de ser.
Um texto forte que traz um olhar sobre a diferença e  o sofrimento de quem não cabe nos padrões eleitos como “normais”, aceitáveis ou desejáveis pela sociedade de humanos. É também um texto que celebra os poderes da imaginação, como chão mágico onde cresce o sonho e a vontade de viver, a despeito da realidade esmagadora como  a da personagem.  Felizmente, “ela podia voar”....

domingo, 1 de julho de 2012

Palavras - a fisionomia poética



“Poesia é um entrosamento de palavras que se juntam e deixam você fascinado”. Ouvi de André, 5º série, esta  definição de poesia. Dita e vivida: o menino deliciava-se com seus poemas preferidos. Exerciam tal fascínio sobre ele que dezenas de vezes os lia, tomado de encanto. A Estrela,  de Manuel Bandeira, estava entre os seus preferidos. Aquela “estrela tão alta e tão fria” baixava das alturas na palma da mão do menino:  que coisas primeiras e penúltimas estrelavam na alma dele cada vez que lia de novo? – eu me perguntava, vendo-o ler para a classe toda. Lia outros também, porém, este o tinha devorado inteiramente.
“Poesia é música? É que nem música!”  - foi a conclusão de Ramon ao ouvir os poemas do livro Ou Isto Ou aquilo, de Cecília Meireles. Patrícia, em processo de alfabetização, descobre O Jogo e a Bola, do mesmo livro: “Fui pra casa e tentei ler sozinha. Fiquei tentando até tarde, até que consegui”. Todos os dias pedia-me para ler de novo este poema e ouvia-o, enlevada, o olho indo e vindo em passeio pela atmosfera lúdica do texto.
Patrícia repetia a 1º série há cinco anos quando me propus a ajudá-la. Não tenho dúvidas de que a poesia contribuiu para que ela deixasse para trás o fastio dos textos mecânicos da cartilha, repetidos anos a fio sem resultados, causando-lhe um enorme prejuízo  à auto-estima: “ não adianta você querer me ensinar a ler, eu não vou aprender, não tenho cabeça para o estudo” – fala que introjetara de tanto ouvir os adultos próximos repetirem.
Ao atualizarmos juntas a beleza, a emoção, a musicalidade da palavra poética ela foi percebendo a diferença e desejando aprender o mais rápido possível para ler sozinha aqueles textos que transbordavam de ludismo.
As crianças sentem que na poesia as palavras dizem mais, dizem  diferente; na poesia as palavras brincam de roda e, ao rodar, emitem faíscas, cintilam, “banhadas por uma luz antiqüíssima e ao mesmo tempo acabadas de nascer”.
Arrisco-me a afirmar, com base na experiência, que é muito raro uma criança descobrir a poesia e não se encantar. Infelizmente o encontro da criança com a poesia ainda  é muito raro. Mas, quando ele acontece,  a corrente de paixão pela leitura se fortalece e é comum que elas desejem ler outros textos poéticos.
Se poucos livros de poesia houver na biblioteca da escola, o bibliotecário poderá se ver em apuros, pois, lançado o pacto lúdico com a poesia, os meninos e meninas envolvidos costumam ser ( felizmente) muito insistentes e, se já tiverem lido todo o acervo ( em geral escasso), virão à porta da biblioteca todo santo dia perguntar: “chegou livro novo de poesia?”
A insistência pode virar algo mais forte a ponto de alguns livros de autores muito amados serem disputados a tapas. Alguns resolvem que não vão mais devolver o livro: “Ah, perdi!”, “Deixei na casa da vó”, “Ficou em outra cidade”. Tudo pra não se separar do livro de poesia, livro que, afinal de contas, brinca, canta, dança e embala, como diz a educadora Ana Schirley: poesia é balanço nos galhos da goiabeira, ou como nos ilumina José Paulo Paes:

Poesia
é brincar com palavras
como se brinca
com bola, papagaio, pião.

Só que
bola, papagaio, pião
de tanto brincar
se gastam.

As palavras não:
quanto mais se brinca
com elas
mais novas ficam.

Como a água do rio
que é água sempre nova.
Como cada dia
que é sempre um novo dia.
Vamos brincar de poesia?


Em reinos como o da literatura, da poesia, é a palavra sonhada que nos recebe à porta. Palavra mutável, rica, dinâmica, plural:

Abre-se a romã
Abre-se a manhã.

Palavra sonhada, vida sonhada. Então o poeta Mário Quintana já não disse que “uma vida não basta apenas ser vivida também precisa ser sonhada”? Voar numa revoada de poemas: mudar de lado o coração para pulsar no justo ritmo de uma palavra sonhada, descobrir o “outro” de si o “outro” dos mundos, trazer para perto as terras estranhas, remotas ou obscuras,  alargar o olhar pra lá, pra cá, pra além...
Quando a palavra é tocada pela poesia  se potencializa e cria a vida nova. As nomeações simbólicas têm o poder de subverter a ordem linear fixadora de sentidos. Liberta dos elos opressivos das convenções da lógica racional, a palavra reconquista a face mágica, o vigor mítico das origens e mostra-se em plenitude.

“A palavra, finalmente em liberdade, mostra todas as suas entranhas, os seus sentidos e alusões, como um fruto maduro ou um foguete no momento de explodir no céu” ((Octávio Paz, 1992, p.26)

É outro o semblante da palavra na poesia, e este semblante a criança reconhece e rapidamente com ele se identifica. Huizinga (2000, p.133) dá ciência de que “ a poesia se exerce no interior da região lúdica do espírito, num mundo próprio para ela criado pelo espírito, no qual as coisas possuem uma fisionomia inteiramente diferente da que apresentam na vida comum, estão ligadas por relações diferentes das da lógica e da causalidade”. O saber intuitivo, o ludismo sonoro e semântico da poesia encontram ressonância no solo lúdico da infância, por isso, é recebida com encantamento e adesão afetiva.
Quando o aluno da primeira série da professora Maria Salete Ramos, interrompeu a leitura do livro de poemas que ela estava apresentando à turma, ficou de pé, de repente, e gritou: “Esse livro eu quero ler! É  esse mesmo! É esse que eu quero ler!”- reconheceu, com surpresa, o semblante mágico dos textos e nem conseguiu esperar a leitura acabar para expressar sua emoção, seu fascínio, e o desejo de tomar nas mãos o livro e provar por ele mesmo do repasto lúdico.
UM POEMA QUE INCENDEIA

COLAR DE CAROLINA

Com seu coral de coral
Carolina
corre por entre as colunas
da colina

O colar de Carolina
colore o colo de cal,
torna corada a menina.

E o sol, vendo aquela cor
do colar de Carolina,
Põe coroas de coral

nas colunas da colina.

Tive uma aluna no curso de magistério que, ao ler este poema de Cecília Meireles, declarou que se via correndo junto com Carolina “por entre as colunas da colina” e que, sempre que pensava no poema, se via assim. Tinha se atirado para dentro do texto de corpo inteiro.
Como outros textos do livro Ou Isto Ou Aquilo, Colar de Carolina é um poema-aparição, pela força evocadora da imagem – a palavra encarnada, recriando a experiência.
O jogo sonoro, já no título, é um princípio de espanto que vira encanto ante a visão do poema surgindo entre mágico e incandescente. A cor do coral se mistura à mobilidade das coisas,  esparrama-se pelo colo da menina, confunde-se com o estado de alma.
Em “colunas da colina” a combinação sonora e imagética atinge o máximo de efeito: o fonema “l” aponta para os ares dando a idéia de altura. Palavra-visão: presentifica o ser nomeado, ao mesmo tempo que o reveste com o pó criativo, dando-lhe a face estranha que provoca a surpresa e o prazer.
O sol completa a incandescência:


põe coroas de coral
nas colunas da colina

E eis que o poema não termina: incendeia!
As palavras criadoras desalinham o real para realinhá-lo sob a ótica do imaginário em que contam a liberdade, o prazer, a invenção.

 BOCHECO, Eloí Elisabete. Poesia infantil: o abraço mágico. Chapecó: Argos, 2002, P. 13 a 20

sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

Primeiras leituras


De João Pessoa-PB chegou este livro,  organizado pela querida amiga Neide Medeiros  Santos e por Yó Limeira.
Encantei-me com os depoimentos de escritores paraibanos sobre suas memórias literárias e modos de se relacionar com a leitura desde a infância.
A família e a escola aparecem com freqüência nas histórias de iniciação literária dos autores,  ora com acertos, ora com equívocos no modo de criar a aproximação com os livros.
Tendo vivido em casas cheias de livros, ou  com a completa ausência deles, os autores criaram desde cedo, vínculos fortes com as palavras, através dos repertórios de  leitura disponíveis em seu tempo e  ao seu alcance ( Clássicos nacionais e estrangeiros, Coleção Tesouro da Juventude, Almanaque Fontoura, histórias em quadrinhos, livrinhos de faroeste, narrativas bíblicas, contos de fadas, lendas do folclore brasileiro, Cordel, dentre outros recursos de leitura citados ).
O que emociona é a paixão com que os depoimentos falam da “felicidade da leitura” e o modo como os autores se entregam à felicidade de ser leitor.
Parabéns  à Neide Medeiros Santos e à Yó Limeira, organizadoras da excelente obra.


 Transcrevo abaixo o texto de apresentação do livro:
“ Há cerca de cinco anos organizamos a coletânea “Memórias Rendilhadas” com depoimentos de quinze escritoras paraibanas ou radicadas aqui no Estado, com suas memórias  de leituras na infância e adolescência. A boa receptividade do livro nos fez pensar numa versão agora de nossos companheiros escritores sobre seus “alumbramentos” pelas leituras nessa mesma fase da vida.
O título Confesso que li, que nos remete ao livro autobiográfico de Pablo Neruda, foi uma sugestão do poeta Cláudio Limeira por nós logo acatada no primeiro momento.
Não é tão fácil, num universo tão vasto de escritores,  selecionar tão poucos, dado o espaço exíguo da coletânea. Procuramos tecer um painel que pudesse abranger poetas, ficcionistas, cronistas, e ensaístas, observando a mais diversas tendências. Assim, a diferença de idade, gêneros literários, muito contribuiu para a diversidade do conteúdo.
Os mais jovens discorreram sobre leituras modernas, outros rememoraram histórias com sabor bom de relíquias bem guardadas no baú da memória. As histórias em quadrinhos, os velhos gibis, estão presentes, dando brilho e alegria a muitos textos. O cinema também se faz presente como estímulo à leitura em alguns autores. Ao rememorar suas primeiras leituras, eles vão também desenhando os traços culturais, usos e costumes de um tempo, fazendo com que a coletânea nos ofereça um panorama de leitura entre os anos 40 e 90, do século XX, portanto abrangendo cinquenta anos de  leitura em nosso Estado.
Vale salientar que não houve de nossa parte pretensão de teorizar sobre o assunto,  tendo por objetivo maior trazer, de forma espontânea e descontraída, os livros que figuravam no cardápio desses escritores na segunda metade do século recém-findo.
Esperamos, com este trabalho,  oferecer subsídio para pesquisas no âmbito de leitura, para alunos e professores, em áreas como letras, pedagogia, biblioteconomia, etc.
Sabemos da importância da leitura na educação, principalmente entre crianças e jovens por ser o livro uma porta aberta para a aquisição de outros conhecimentos.
Esta coletânea, através das experiências vividas aqui pelos seus autores, deixa bem evidente a magia e poder da leitura na formação dos jovens em todos os tempos e lugares”.            Neide Medeiros  Santos e Yó Limeira

“ A experiência de ler é a mais profunda que o homem tem em termos de comunicação com o semelhante. Nosso diálogo com os outros é incompleto, limitado por entraves sociais e afetivos. Ninguém, mesmo querendo, diz tudo nem ouve tudo. Ninguém se abre para nós com a amplitude e a intensidade com que os personagens o fazem. Eles não têm segredos e, ao revelar-se, dizem muito de nós. Cada personagem é um confidente e um espelho em que nos miramos com solidariedade e por vezes com horror”.      ( Chico  Viana , P. 41)
  Entre as obras que mais me marcaram,  na primeira fase de leitura,  dos 9 aos 13 anos, eis as Fábulas de Esopo, o legado de Apuleio e o seu Asno de Ouro – que inspirou em outras épocas autores como Bocaccio e Cervantes - , La Fontaine e suas raposas, gansos e lebres; as primeiras perguntas,o que somos,o que é o vácuo,o mundo tem fim, Deus existe, a Terra é mesmo redonda , por que morremos, fundiam-se à lendas  ao real, aos causos e fábulas e a ficção virava uma representação verdadeira do mundo – o Tesouro da Juventude”.  ( Carlos Tavares, P.3)

“Comecei a ler livros propriamente ditos aos doze ou treze anos, quando um vizinho de minha idade, de ascendência austríaca – desses que, sem permissão para as brincadeiras de rua, vivia entre quatro paredes, cumprindo tarefas domésticas e escolares – me alertou para a existência da Biblioteca Pedro Moreno Gondim, na rua Aderbal  Piragibe, também em Jaguaribe.
Não sei por que – provavelmente por puro acaso – os meus primeiros escritores lidos foram os ingleses. Somerset  Maugham foi o primeiríssimo a me tomar a  atenção e a me desviar das brincadeiras infantis, com seus dramas, aliás,  nada infantis, como Um gosto e seis vinténs e O Biombo chinês. Depois veio Graham Greene com suas histórias policiais e políticas. Uma leitura que muito me impressionou foi A Hora final, de Nevil Shute, sobre o fim do mundo depois da explosão da bomba atômica”.                            
                                                   (João Batista de Brito P.116)
 “A poesia se torna presente em minha infância antes dos livros, por meio de várias manifestações orais   com mensagens poéticas. Sendo meu pai músico, me acostumei a ouvir sua coleção de discos, e me emocionava  com os versos musicados.
Nessa época eram choros, sambas, canções nostálgicas, de compositores como Ernesto Nazareth, Chiquinha Gonzaga. O romantismo e ironias de Noel Rosa, os dramas de Vicente Celestino, o lirismo de Ismael Silva.
Em tempos de misticismo, os cânticos nas missas, novenas e procissões. Não deixando de lembrar os repentistas de  cordel, com seus desafios acompanhados pelos acordes monótonos das violas”.
                                                      (Hermano José P. 99)

sábado, 8 de outubro de 2011

Conversas inesquecíveis...



No dia 04-10-2011, participei de um encontro com as crianças do terceiro e quarto anos da escola Adotiva Liberato Valentim, na Costeira do Pirajubaé, em Florianópolis-SC. O encontro aconteceu por conta do Projeto CLUBE DA LEITURA, da prefeitura de Florianópolis, que promove, em uma de suas etapas, a visita do escritor às escolas.Todos os detalhes deste belíssimo projeto de promoção da leitura, coordenado pelas  professoras Heliete S. Milack e Rosane Kreuch podem ser vistos no blog


As alunas da professora Simone Cintra abriram a sessão com uma linda apresentação do livro O pacote que tava no pote. Foi muito mágica esta apresentação e eu nunca vou esquecer este momento.



As paredes do recinto estavam repletas de produções feitas a partir da leitura das obras. Fui presenteada com um baú, dentro do qual havia várias caixas e, na última que abri ,encontrei uma porção de cartinhas da turma expressando opiniões sobre meus livros. As cartinhas são, em verdade, dobraduras lindas, em papéis de várias cores. 





Na hora das perguntas, muitas mãozinhas balançavam no ar, querendo saber uma porção de coisas. A bibliotecária conduziu a “sabatina” com muito tato e sabedoria.
Pude perceber que a moçadinha do Liberato Valentim tem bastante familiaridade com livros, com leitura, com literatura. O encontro com os autores não é uma atividade eventual, é continuidade de um trabalho de exposição aos atos de leitura usualmente praticados na escola, em classe e na biblioteca. Por sinal, a biblioteca tem duas encantadoras de leitores maravilhosas, Adriana e Rosa, que tive a felicidade de conhecer. Adriana é articuladora do projeto Clube da Leitura nesta escola.
Meus aplausos a todos os envolvidos neste trabalho de promoção da leitura e da literatura, que é um trabalho de criação de uma memória de leituras em crianças e jovens. Memória esta que os marcará para o resto da vida e poderá servir como suprimento para a caminhada que farão ao longo de suas existências.











sexta-feira, 27 de maio de 2011

Doses de Sonho - Prêmio Leia Comigo! FNLIJ - 2011

Para Ana Schirley Favero


Ela era bem nova quando a vi entrar na classe do antigo ginásio da Escola Juçá Barbosa Callado, pela primeira vez. Usava uma saia enxadrezada em verde e bege e uma blusa amarelo-queimado. Trazia um arco de vidro nos cabelos e usava sandálias marrons de salto alto. Essa primeira visão dela permanece viva ainda que tenham se passado quarenta anos desde esse dia. Ela própria me diz que não se lembra mais de ter tido essas peças de vestuário e, no entanto, eu lembro tão bem.
Chegou com os braços cheios de livros: era sempre este o seu modo de chegar. Apresentou o livro-texto de Antônio Ravanelli, que usaríamos em sala. Até hoje procuro nos Sebos a coleção, para quinta a oitava séries, deste autor. Usava pouco esse livro, o didático. Era apenas um recurso a mais em seu estoque de feitiços para nos apaixonar pela leitura. Era uma mestra cheia de cuidados com a criação da memória literária de seus alunos. Tinha o formoso costume de ler poemas, crônicas e livros aos capítulos, em voz alta para a classe. Creio ter sido este o maior feitiço de todos. As palavras cresciam na voz dela – até um texto insípido do livro didático de antanho brilhava. Aquelas sessões de leitura me deram as primeiras noções intuitivas dos poderes das palavras, do quanto elas podiam ser arrebatadoras.
Ela própria se deliciava com a leitura que fazia. Não era só a apresentação de um texto: era a repartição de um sonho. Lia em transe, possuída, a muitos palmos do chão carcomido da sala de aula.
Entre as palavras abriam-se vãos mágicos que nos puxavam para o alto como ímãs. Por instantes, esquecíamos as carteiras riscadas, as vidraças em pedaços, a sala feia, o quadro de giz esburacado. Havia pontos em nós que faiscavam de possibilidades. Era como se ela dissesse, através de seus rituais de leitura: “o caminho do sonho é por aqui, crianças!”
Muitos textos que ela trazia para a classe eram datilografados em estêncil, na máquina de escrever, e impressos em mimeógrafo a álcool. Na folha branca, em letra azul, o poema, o conto, a crônica, o excerto da obra vinha a nós com muito capricho e cerimônia. Ela os entregava de carteira em carteira, depois dobrávamos e colávamos no caderno de linguagem.
Após este ritual de dobrar e colar o texto, ela fazia a primeira leitura. O Cajueiro, de Rubem Braga, na leitura dela, caía devagarinho sobre a casa do autor, com tal delicadeza que era impossível não se apaixonar pela árvore, mesmo morando numa região onde nunca se viu um cajueiro.
Com voz apaixonada, ela golpeava a rotina com a flecha luminosa da palavra literária. Esta saraivada de luz nos atingia em cheio e atiçava o desejo de ler e buscar outras leituras onde quer que estivessem.
Apresentou Cecília Meireles à classe com grande enlevo e intróito apaixonado pela vida e obra da escritora. Lia os textos da autora na altura e na maciez apropriadas às palavras de seda da escritora.
Por entre as letras azuis, na folha branca acetinada, surgia o Anjo da noite, o inesquecível guarda-noturno. Na visão poética de Cecília Meireles e na voz da mestra - sintonizada com a respiração da crônica - os passos do guarda ora se afastavam, ora se aproximavam. Em algum parágrafo ele apitava, em outro, um gato retardatário pulava o muro. Sob nossos pés, a rua, sobre nossas cabeças a noite profunda. O guarda-noturno, Anjo da noite, cuidava do sono das gentes. A mestra cuidava de nossa memória literária e abria ruas sem fim em nossa imaginação.
“Vamos ouvir Canção excêntrica”. "Ando à procura de espaço para o desenho da vida/em números me embaraço e perco sempre a medida"... Os versos caíam sobre nós. Os olhos da mestra perscrutavam as feições. O que seria excêntrica? Ela não explicou naquele momento, acho que para não esmaecer o clima lúdico. Ela era toda finura com a palavra poética. Quem precisava saber o que era excêntrico para voar com as asas que saltavam dos olhos dela, tão embriagados no instante lírico como os nossos? Mais tarde ela contou sobre o excêntrico. Entendi que ela própria era assim, de tanto amor pelas palavras. Amor excessivo. Benditos excessos os dela!
As leituras nunca aconteciam num dia marcado. Ela gostava de nos fazer surpresas. Podiam acontecer numa terça-feira calma, numa sexta em que caiu o muro da frente da escola, numa quarta em que o Rio Pelotas transbordou, numa segunda-feira de enormes saudades de alguém que partiu, numa quinta sem nada para comemorar.
Nossos ”corações inquietos e perturbados com a passagem e o tropel das coisas do mundo, umas que vão, outras que vêm, outras que atravessam", como diz no Sermão da Sexagésima, de Pe. Antônio Vieira, esperavam pelos finos repastos que ela ofertava.
Um dia trouxe um livro de Cecília Meireles que era, no formato, tal qual um caderno de desenho. Quando abriu e leu o primeiro poema fiquei atônita: não era um caderno de desenho: era um porta-jóias! A primeira jóia que brilhou foi um colar de coral. Nunca eu tinha visto um poema incendiar. As paredes da sala, há mil anos sem pintura, mergulharam em luminosidade. A profa. leu e releu deliciadamente. A cada leitura, as imagens ficavam mais nítidas, como se ela desse lápis-de-cor à voz e fosse desenhando o poema no ar. Via-se que a mestra era devota daquele colar. Devota do mesmo colar também me tornei.
Do porta-jóias caíam rubis: “Rolam rubis rubros do céu”. "Abre-se a romã/Abre-se a manhã”. Até o apagador, na beira do quadro, cintilava. As aulas eram noturnas, mas, dentro de nós, o sol brilhava.
A linguagem tinha um outro modo de dizer. Um outro semblante: mais vivo e mais luminoso. Para esse outro universo da linguagem a mestra nos levava para passear. Eram momentos de feriados da linguagem referencial. Ela sabia o quanto estes passeios podiam avultar nosso desejo de beleza e de liberdade.
A vida não precisava ser só o puro chão. Outro desenho era possível. "Uma pena a vida ser só isto!" Os versos de Cecília Meireles se aplicam bem aos dias de pobreza simbólica em que vivemos, tempo pródigo em atrativos para os olhos biológicos. A jovem mestra, pressentia que só os olhos biológicos não bastam: "não é bastante não ser cego para ver as árvores e as flores" – como lemos em Fernando Pessoa, seguido de perto por Mário Quintana em "uma vida não basta apenas ser vivida, também precisa ser sonhada." Havia outros modos de ler o mundo que fugiam ao óbvio, e isso ela mostrava ao nos conduzir pelos territórios lúdicos da imaginação.
Tenho saudades da moça com arco-de-vidro nos cabelos, que chegava sempre com os braços cheios de livros e lia, com voz apaixonada, seus autores prediletos, os melhores da literatura nacional e estrangeira. Ainda hoje, quando releio certos livros, ouço-a, ao fundo, ler passagens marcantes, diálogos, descrições. A voz dela ficou gravada a sonho e se mistura com poemas, contos, crônicas narrativas. Não poucas vezes paro para ouvi-la novamente e noto que a voz não envelheceu.

sábado, 4 de dezembro de 2010

Quando a paixão de ler vence a falta - trajetória de uma encantadora de leitores



Rosa Rosani Bazi, animadora da biblioteca do Colégio Mater Dolorum, em Capinzal-SC, é uma educadora em final de carreira, que mantém viva a paixão pela leitura e o entusiasmo dos verdes anos de sua adolescência como professora.

Nem a infância sem livros, nem o afastamento da escola por um longo período, na adolescência, impediu que ela se tornasse uma leitora apaixonada, daquelas que estão sempre inventando feitiços para cativar leitores.
Rosani tem Pós-graduação em Alfabetização e Séries Iniciais e Mestrado em Educação e Gestão Educacional. Hoje, às vésperas da aposentadoria, Rosani pensa em fazer uma Pós-Graduação em Literatura Infantil.

"Minha formação é um tanto quebrada.  iniciei meus estudos aos 7 anos de idade. Naquela época não existia transporte escolar e só os meus irmãos é que poderiam sair de casa. Então tive que sair da escola, e só continuei meus estudos aos 19 anos quando ia me casar. Eu e minha mãe, que também era professora leiga, passamos a estudar juntas e concluímos o curso Logos II, Magistério Emergencial, instituído pelo MEC. Eliminei as matérias em um ano e oito meses. Comecei a graduação em Orientação Educacional na UNIJUI, mas não era bem isso que eu queria então passei para o curso de Pedagogia em Series Iniciais em Passo Fundo –UPF”.
Que lembranças, imagens, vivências, memórias de experiências com livros e leitura você guarda de seu tempo de infância, antes e durante a alfabetização?

Você me pede livros da minha infância, me deu uma vontade de chorar, mas sempre fica uma coisinha mesmo que bem simplesinha nos porões da memória. Ficou uma ilustração bem vaga de uma ratinha muito trabalhadeira que lavava pilhas de pratos. Ganhei o livro  de  meu  pai. As leituras eram só os textos dos livros didáticos. Eu gostava demais de estudar. Eu e meu irmão usávamos muito nossa imaginação. O pé de uva-japão, cheio de galhos,  era o meu prédio, minhas casinhas eram sempre nas árvores.

Meu pai foi meu professor, sem formação, e  com pouco carinho para com os alunos. Eu e meus manos ficamos muito felizes quando ele tirou licença para tratamento de saúde. Pelo menos durante três  meses sentimos o gostinho que era ter outro professor. Ele misturava nossas atitudes de casa com as da escola. Um belo dia recusei-me a secar a louça para minha mãe, ele estava fechando as médias, e me deu nota cinco, em vermelho, no boletim.
Por outro lado, eu gostava de brincar de professora e desenhei muito com carvão, atrás  dos galpões. Até hoje adoro desenhar e tenho facilidade.

 Em seu curso de graduação e pós-graduação, como foi encaminhada a questão da prática de leitura, com vistas a prepará-la para conduzir a prática leitora em classe, com seus alunos?


Na realidade aprendi na prática, quando eu trabalhava na escola multisseriada. Recebemos um material chamado’’ Ciranda de Livros’’. Havia um bom material orientando o professor para motivação das leituras de cada obra.

Também na graduação contei com uma ótima professora chamada Irene Saraiva, que motivou a leitura de muitas obras que me impulsionaram para este caminho de motivação pela leitura. Nas Pós-Graduações também tive  disciplinas que motivaram, de alguma forma, este assunto, não tão aprofundado, mas para quem gosta, já impulsiona.
Em sua história , como professora, como foi a experiência com a formação leitora de seus alunos? Que experiências com leitura foram mais marcantes em sua carreira de professora?

Em minha história como professora, as experiências com a formação do aluno leitor foram muitas e marcantes...e olha que começaram bem lá nos meus primeiros anos de professora, na escola Isolada Nova Esperança.  Eu não estava formada ainda.


Estava eu motivando meus aluninhos para a leitura de um texto, quando notei que as crianças olhavam pela janela e cochichavam, resmungavam, não me davam atenção. Logo depois da janela havia uma cerca de ripas brancas e um pomar de laranjas comuns, umas árvores enormes. Eu insisti para que as crianças prestassem atenção no que eu estava falando naquele momento. Elas até se esforçaram, mas os olhos se voltavam  para fora e escapavam uns gritinhos. Então  fui ver o que estava acontecendo. Era uma enorme cobra verde querendo pegar os filhotes do ninho de um casal de canarinhos desesperados, que gritavam muito.

Então, sem pensar duas vezes, fomos todos lá (todas as séries, meninas e meninos). Os meninos pegaram uma enorme vara de taquara, usada para tirar laranjas, treparam na laranjeira e espantaram a cobra. Iam caindo laranjas e as meninas abriam as saias e iam colocando as laranjas. Mas a cobra poderia cair também. As meninas gritavam e corriam. Entrei tanto no clima que nem me preocupei (no caso de um aluno cair ou se machucar). Partimos para um longo estudo no pátio mesmo. As crianças trouxeram os livros de ciências, observaram se a cobra era venenosa, comparando com os desenhos do livro. Formou-se um círculo de alunos interessados em aprender, todos envolvidos com os resultados das pesquisas in loco. Eu estava animadíssima com os resultados. Depois o lanche foi aquela matemática... quantas laranjas para cada aluno... e que lanche gostoso! Só alegria! Os passarinhos estavam felizes e nós também. A cobra verde coitada, serviu de cobaia para estudos!


E como foi fácil escrever sobre o que havia acontecido! A leitura então foi ótima. Foi ali, naquele momento, que me desprendi de apresentar conteúdos prontos e passei a observar mais os interesses dos alunos e comecei a trabalhar de forma diferente. Estudávamos no interior, tínhamos tantas riquezas naturais e ficávamos forçando os coitados a compreender conceitos, quando podíamos formar juntos estes conceitos. Partimos para passeios, visitas. Trabalhei muito e de forma diferente, e os resultados também foram diferentes. Passei a acreditar em meu potencial e no dos meus alunos. Soltei a imaginação. ...

Os passeios passaram a ser constantes, para conhecer nossa comunidade. Entrevistávamos as senhoras e senhores mais idosos para entendermos melhor como foi povoada nossa pequena comunidade de Nova Esperança. Pesquisamos os animais que havia, os rios, as matas e os cuidados com a natureza, e a transformação que fez o homem. A Matemática, estudávamos na nossa horta, as medidas dos canteiros, subtração, adição, divisão, multiplicação, etc . O mais gostoso mesmo eram as divisões, feitas com uma varinha no pátio, para ver quantos tomates cada aluno levaria para sua casa. E mais, amávamos aquela escola! Quando chegava dezembro, marcávamos: a cada 15 dias, do período das férias, todos os alunos iam até a escola junto comigo para a limpeza da escola e dos arredores e para colher verduras e conservar a horta limpa e bonita.


Como tínhamos poucos livros para leitura, então participávamos de um programa de rádio bem cedo, na Rádio Capinzal. Frei Davi fazia umas perguntas e quem respondesse, concorria a livros. Muitos dos meus alunos ganharam livros e ficavam felizes e eu também. Lembro que a Escola não tinha a biblia e no Natal a pergunta era: O que significa o Natal? Todos os alunos, de primeira a quarta série participaram. Cada aluno fez suas colocações e muitos outros ouvintes participaram também e quem ganhou foi a escola de Nova Esperança. O Frei leu a carta no rádio. Os pais vinham orgulhosos contar, agradecendo o meu apoio. Imagine a minha alegria. Eles escreviam , liam, e ouviam, e toda a comunidade ouvia.


Em sala de aula lembro de uma aluna que, depois que acabei de contar uma história, olhou séria pela janela e me perguntou: Prof., tem bruxa naquele mato?

Infelizmente esta escola fechou por falta de alunos, mas tive tanto apoio da Epagre e da Coordenação que fui transferida e promovida para trabalhar em uma escola Básica como secretária. Mesmo como secretária continuei com meus projetos extra–classe: horta, mini-estação metereológica, artesanato, bordado, etc,...Durante o tempo nessa escola é que resolvi fazer a graduação em Passo Fundo-RS. Só tenho boas recordações desta escola tão maravilhosa, que tinha uma direção comprometida com a comunidade.


Em 1997, iniciei, minhas atividades em Capinzal(vim para cá para cuidar de minha mãe, que estava muito doente). Nosso querido Uruguai também sofreu com a barragem de Itá, ficando a comunidade reduzida. Como eu era efetiva no Estado, transferi-me para Capinzal. Não me acostumei e tive depressão, mas hoje, graças a Deus, e a um montão de amigos que conquistei, sou feliz aqui e não saberia fazer outra coisa a não ser motivar leitores. Amo o que faço, adoro trabalhar, não posso ficar quieta.
Como dinamizadora da biblioteca, você faz feitiços literários o tempo todo para seduzir leitores. Como tem sido essa experiência de encantadora de leitores na biblioteca do Mater Dolorum?


Como dinamizadora da biblioteca procuro planejar, organizar o que temos para oferecer à clientela. Já percebi que devo explorar os cinco sentidos para motivar a leitura e precisa muito trabalho para conseguir algum resultado. No mês de novembro estou fazendo um trabalho explorando os livros de imagem. Mostro as ilustrações e depois exploro o texto sem palavras. É de arrepiar o pelo! As turmas mais bagunceiras ficam em silêncio vendo as ilustrações passarem e querem demonstrar que entenderem a história. Tenho uma salinha só com os apetrechos: caixas, cineminhas, cenários, flanelógrafo,etc.  Os livros são explorados com diferentes recursos e matariais.

Cada vez que chega livro novo faço exposição, ampla divulgação, cartazes, exposição de tela, bordados,etc...

Trabalhar na biblioteca faz renascer em mim meu lado criativo e passei a colocar meus projetos em ação, aos poucos. Mas hoje posso dizer que o espaço da biblioteca é o melhor espaço para as crianças. É o ponto de encontro. Procuro inovar, dar vida para o espaço.

O projeto ‘’EU CONTO, TU CONTAS’ é um sucesso. Vou avaliando e as respostas me realizam. Até os alunos da 6ª série adoram ouvir histórias. Os alunos me dizem: prof. tem que continuar ano que vem. Com certeza tudo o que deu certo vamos continuar. No inverno fiz, a sopa de pedras do Pedro Malassartes, O chá das 17 horas,  era uma tarde fria... Das delícias todos provaram e o feitiço mesmo é a  imaginação ....estava quentinho e não tinha fogão....

 A leitura do livro O rei que tinha orelhas de burro  foi um sucesso. QUEM SONHA ACORDA, A FADA QUE SOLUÇAVA, vieram com CD. Coloquei num amplificador, fiz uns visuais bem coloridos. Preparei um estander para expor as ilustrações,  um espaço privilegiado com cadeiras estofadas e um ambiente bem agradável...era só curtir....da primeira até a sétima série adoraram...e eu mais ainda. Sem contar que tivemos histórias com fantoches e convidados especiais.

O destaque, em 2010, foi o projeto EU CONTO, TU CONTAS. Todos os alunos que contaram histórias foram agraciados com um livro contendo uma dedicatória.

Tudo isso com o objetivo de formar o gosto pela leitura , a paixão de ler e sentir que é bom...é interessante e necessário.













 O Projeto EU CONTO, TU CONTAS envolve cinquenta títulos de literatura infanto-juvenil, dentre os quais: