terça-feira, 7 de fevereiro de 2023

Flores, afetos, memória

 


CANTORIAS DE JARDIM, de modo lúdico e afetivo, enlaça poeticamente um ramalhete de flores através de poemas inspirados na poesia oral do folclore.
O narrador poético conversa com as flores ( rosa, cravo, lírio, amor-perfeito, margarida, jasmim e demais flores do feixe poético), conta seus segredos e magias e, por vezes, chama o leitor para participar da cena poética, ora ofertando-lhe a flor homenageada, ora propondo um jogo de adivinhação, ora advertindo-o para perceber a flor, tal como faziam os cantores peregrinos e singelos de outrora.




Uma das primeiras visões que uma criança camponesa tinha em Duas Pontes, onde passei a infância, eram as flores nas paredes, nos canteiros, nas cercas das varandas, nos caramanchões. Os jardins surgiam das trocas de “mudas” entre os moradores. O ritual de receber a muda ( uma semente, um galhinho, um bulbo, um ramo) preparar a terra, plantar, cuidar e esperar a floração era um modo mágico de alimentar as amizades, os afetos  e o gosto de viver.

Esse jeito de criar jardins eu achava fascinante ( e ainda acho). Assim, em Cantorias de Jardim, meu quinto livro pela Paulinas,  homenageio, em versos, as flores que me viram crescer e me acompanharão pela vida afora. O procedimento poético e a linguagem para compor o ramalhete fui buscar nas  fontes da  tradição oral,  cuja singeleza e brilho faz par com as  flores vivas  da memória.



“Acordar com cantorias de açucenas faz lembrar minha vó Luiza que, aos noventa anos, guardava sementes e nos dizia: “ plantem para o mundo”. Ela acreditava que muitos seres iriam admirar por ela. Faz lembrar minha mãe que caminhava quilômetros em busca de uma muda, sementes, ou uma folhinha de begônia, violeta, plantas variadas e esperava florescer. Lembro de ouvir minha mãe ao telefone com minhas tias: “me arruma uma mudinha de antúrio branco, outra do bem vermelho, tenho outras cores e posso te passar”.
Parabéns, Eloí, por juntar tantas flores e semear no mundo através do livro Cantorias de Jardim”.       
Maria Salete Constantino Ramos

Professora em São José/SC


domingo, 29 de janeiro de 2023

Flores vivas da memória



 







 




 


Coisas que inspiram



                                                    

                  Crônica contemplada na antologia de crônicas do Prêmio OFF FLIP 2022

                                                   

                                               COISAS QUE INSPIRAM


Num dia de caminhada pelo quarteirão, vi dois meninos juntando embalagens e outros materiais que os descuidados jogam nas beiras das ruas. Os garotos, munidos de garfos compridos, catavam os resíduos uma a um. Graças ao comprimento do garfo, conseguiam catar coisas jogadas a grande distância das beiras. Faziam a catação com o maior requinte. Depositavam em sacos cada espécie de resíduo, conforme fossem lata, plástico, papel ou vidro.

 Interrompi a caminhada para contemplá-los. Os meninos brilhavam sob o sol de setembro.   Aproximei-me e perguntei se a catação era uma tarefa da escola. Disseram que não. Estavam fazendo o trabalho por gosto mesmo, por vontade de ver o quarteirão limpo: “porque a rua limpa é mais legal e mais bonita”.  Também indaguei se faziam isso sempre.  Responderam que aquela era a quarta limpeza que faziam. Dei-lhe muitos e alegres parabéns pela atitude. Agradeci em nome de todos os moradores das imediações, inclusive dos mal-educados que atiram carqueramas nas ruas da cidade.

  Depois disto continuei a caminhada em direção ao morro de Mariscal. Quando voltei os meninos tinham sumido da paisagem. O quarteirão estava limpo e brilhando. Os meninos, com seus maravilhosos garfos ecológicos, deram uma lição de beleza e cidadania. Atitudes sensíveis como esta renovam a esperança em dias melhores na face da terra, dias em que a vida seja valorizada, a vida, a vida reinventada como diz a profecia poética de Cecília Meireles.

  Em vários pontos deste mundo, meninos e meninas admiráveis, como estes garotos de minha cidade, praticam atos anônimos de amor e cuidados  pelo outro, seja o outro bicho, gente, planta, água, florestas... Tenho notícias de pequenos cidadãos criando bibliotecas nos lugares mais inóspitos, fazendo trabalhos em hospitais e casas de idosos, alfabetizando pessoas, plantando árvores em terrenos devastados, promovendo campanhas pela paz, lendo para pessoas com deficiência visual, ajudando colegas com dificuldades na escola,   anônimas ações que brilham em meio ao caos e à barbárie de nossos dias tão marcados por crueldades contra o outro.

  Torço para que estes pequenos cidadãos  se multipliquem, se tornem uma legião muito mais forte e poderosa do que a  dos adeptos do bullyng e de  toda espécie de crueldade contra os viventes.  Que a luz destes pequenos paladinos resplandeça e contamine o mundo com a palma da delicadeza e a alegria do bem-querer.