domingo, 1 de julho de 2012

Palavras - a fisionomia poética



“Poesia é um entrosamento de palavras que se juntam e deixam você fascinado”. Ouvi de André, 5º série, esta  definição de poesia. Dita e vivida: o menino deliciava-se com seus poemas preferidos. Exerciam tal fascínio sobre ele que dezenas de vezes os lia, tomado de encanto. A Estrela,  de Manuel Bandeira, estava entre os seus preferidos. Aquela “estrela tão alta e tão fria” baixava das alturas na palma da mão do menino:  que coisas primeiras e penúltimas estrelavam na alma dele cada vez que lia de novo? – eu me perguntava, vendo-o ler para a classe toda. Lia outros também, porém, este o tinha devorado inteiramente.
“Poesia é música? É que nem música!”  - foi a conclusão de Ramon ao ouvir os poemas do livro Ou Isto Ou aquilo, de Cecília Meireles. Patrícia, em processo de alfabetização, descobre O Jogo e a Bola, do mesmo livro: “Fui pra casa e tentei ler sozinha. Fiquei tentando até tarde, até que consegui”. Todos os dias pedia-me para ler de novo este poema e ouvia-o, enlevada, o olho indo e vindo em passeio pela atmosfera lúdica do texto.
Patrícia repetia a 1º série há cinco anos quando me propus a ajudá-la. Não tenho dúvidas de que a poesia contribuiu para que ela deixasse para trás o fastio dos textos mecânicos da cartilha, repetidos anos a fio sem resultados, causando-lhe um enorme prejuízo  à auto-estima: “ não adianta você querer me ensinar a ler, eu não vou aprender, não tenho cabeça para o estudo” – fala que introjetara de tanto ouvir os adultos próximos repetirem.
Ao atualizarmos juntas a beleza, a emoção, a musicalidade da palavra poética ela foi percebendo a diferença e desejando aprender o mais rápido possível para ler sozinha aqueles textos que transbordavam de ludismo.
As crianças sentem que na poesia as palavras dizem mais, dizem  diferente; na poesia as palavras brincam de roda e, ao rodar, emitem faíscas, cintilam, “banhadas por uma luz antiqüíssima e ao mesmo tempo acabadas de nascer”.
Arrisco-me a afirmar, com base na experiência, que é muito raro uma criança descobrir a poesia e não se encantar. Infelizmente o encontro da criança com a poesia ainda  é muito raro. Mas, quando ele acontece,  a corrente de paixão pela leitura se fortalece e é comum que elas desejem ler outros textos poéticos.
Se poucos livros de poesia houver na biblioteca da escola, o bibliotecário poderá se ver em apuros, pois, lançado o pacto lúdico com a poesia, os meninos e meninas envolvidos costumam ser ( felizmente) muito insistentes e, se já tiverem lido todo o acervo ( em geral escasso), virão à porta da biblioteca todo santo dia perguntar: “chegou livro novo de poesia?”
A insistência pode virar algo mais forte a ponto de alguns livros de autores muito amados serem disputados a tapas. Alguns resolvem que não vão mais devolver o livro: “Ah, perdi!”, “Deixei na casa da vó”, “Ficou em outra cidade”. Tudo pra não se separar do livro de poesia, livro que, afinal de contas, brinca, canta, dança e embala, como diz a educadora Ana Schirley: poesia é balanço nos galhos da goiabeira, ou como nos ilumina José Paulo Paes:

Poesia
é brincar com palavras
como se brinca
com bola, papagaio, pião.

Só que
bola, papagaio, pião
de tanto brincar
se gastam.

As palavras não:
quanto mais se brinca
com elas
mais novas ficam.

Como a água do rio
que é água sempre nova.
Como cada dia
que é sempre um novo dia.
Vamos brincar de poesia?


Em reinos como o da literatura, da poesia, é a palavra sonhada que nos recebe à porta. Palavra mutável, rica, dinâmica, plural:

Abre-se a romã
Abre-se a manhã.

Palavra sonhada, vida sonhada. Então o poeta Mário Quintana já não disse que “uma vida não basta apenas ser vivida também precisa ser sonhada”? Voar numa revoada de poemas: mudar de lado o coração para pulsar no justo ritmo de uma palavra sonhada, descobrir o “outro” de si o “outro” dos mundos, trazer para perto as terras estranhas, remotas ou obscuras,  alargar o olhar pra lá, pra cá, pra além...
Quando a palavra é tocada pela poesia  se potencializa e cria a vida nova. As nomeações simbólicas têm o poder de subverter a ordem linear fixadora de sentidos. Liberta dos elos opressivos das convenções da lógica racional, a palavra reconquista a face mágica, o vigor mítico das origens e mostra-se em plenitude.

“A palavra, finalmente em liberdade, mostra todas as suas entranhas, os seus sentidos e alusões, como um fruto maduro ou um foguete no momento de explodir no céu” ((Octávio Paz, 1992, p.26)

É outro o semblante da palavra na poesia, e este semblante a criança reconhece e rapidamente com ele se identifica. Huizinga (2000, p.133) dá ciência de que “ a poesia se exerce no interior da região lúdica do espírito, num mundo próprio para ela criado pelo espírito, no qual as coisas possuem uma fisionomia inteiramente diferente da que apresentam na vida comum, estão ligadas por relações diferentes das da lógica e da causalidade”. O saber intuitivo, o ludismo sonoro e semântico da poesia encontram ressonância no solo lúdico da infância, por isso, é recebida com encantamento e adesão afetiva.
Quando o aluno da primeira série da professora Maria Salete Ramos, interrompeu a leitura do livro de poemas que ela estava apresentando à turma, ficou de pé, de repente, e gritou: “Esse livro eu quero ler! É  esse mesmo! É esse que eu quero ler!”- reconheceu, com surpresa, o semblante mágico dos textos e nem conseguiu esperar a leitura acabar para expressar sua emoção, seu fascínio, e o desejo de tomar nas mãos o livro e provar por ele mesmo do repasto lúdico.
UM POEMA QUE INCENDEIA

COLAR DE CAROLINA

Com seu coral de coral
Carolina
corre por entre as colunas
da colina

O colar de Carolina
colore o colo de cal,
torna corada a menina.

E o sol, vendo aquela cor
do colar de Carolina,
Põe coroas de coral

nas colunas da colina.

Tive uma aluna no curso de magistério que, ao ler este poema de Cecília Meireles, declarou que se via correndo junto com Carolina “por entre as colunas da colina” e que, sempre que pensava no poema, se via assim. Tinha se atirado para dentro do texto de corpo inteiro.
Como outros textos do livro Ou Isto Ou Aquilo, Colar de Carolina é um poema-aparição, pela força evocadora da imagem – a palavra encarnada, recriando a experiência.
O jogo sonoro, já no título, é um princípio de espanto que vira encanto ante a visão do poema surgindo entre mágico e incandescente. A cor do coral se mistura à mobilidade das coisas,  esparrama-se pelo colo da menina, confunde-se com o estado de alma.
Em “colunas da colina” a combinação sonora e imagética atinge o máximo de efeito: o fonema “l” aponta para os ares dando a idéia de altura. Palavra-visão: presentifica o ser nomeado, ao mesmo tempo que o reveste com o pó criativo, dando-lhe a face estranha que provoca a surpresa e o prazer.
O sol completa a incandescência:


põe coroas de coral
nas colunas da colina

E eis que o poema não termina: incendeia!
As palavras criadoras desalinham o real para realinhá-lo sob a ótica do imaginário em que contam a liberdade, o prazer, a invenção.

 BOCHECO, Eloí Elisabete. Poesia infantil: o abraço mágico. Chapecó: Argos, 2002, P. 13 a 20

sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

Primeiras leituras


De João Pessoa-PB chegou este livro,  organizado pela querida amiga Neide Medeiros  Santos e por Yó Limeira.
Encantei-me com os depoimentos de escritores paraibanos sobre suas memórias literárias e modos de se relacionar com a leitura desde a infância.
A família e a escola aparecem com freqüência nas histórias de iniciação literária dos autores,  ora com acertos, ora com equívocos no modo de criar a aproximação com os livros.
Tendo vivido em casas cheias de livros, ou  com a completa ausência deles, os autores criaram desde cedo, vínculos fortes com as palavras, através dos repertórios de  leitura disponíveis em seu tempo e  ao seu alcance ( Clássicos nacionais e estrangeiros, Coleção Tesouro da Juventude, Almanaque Fontoura, histórias em quadrinhos, livrinhos de faroeste, narrativas bíblicas, contos de fadas, lendas do folclore brasileiro, Cordel, dentre outros recursos de leitura citados ).
O que emociona é a paixão com que os depoimentos falam da “felicidade da leitura” e o modo como os autores se entregam à felicidade de ser leitor.
Parabéns  à Neide Medeiros Santos e à Yó Limeira, organizadoras da excelente obra.


 Transcrevo abaixo o texto de apresentação do livro:
“ Há cerca de cinco anos organizamos a coletânea “Memórias Rendilhadas” com depoimentos de quinze escritoras paraibanas ou radicadas aqui no Estado, com suas memórias  de leituras na infância e adolescência. A boa receptividade do livro nos fez pensar numa versão agora de nossos companheiros escritores sobre seus “alumbramentos” pelas leituras nessa mesma fase da vida.
O título Confesso que li, que nos remete ao livro autobiográfico de Pablo Neruda, foi uma sugestão do poeta Cláudio Limeira por nós logo acatada no primeiro momento.
Não é tão fácil, num universo tão vasto de escritores,  selecionar tão poucos, dado o espaço exíguo da coletânea. Procuramos tecer um painel que pudesse abranger poetas, ficcionistas, cronistas, e ensaístas, observando a mais diversas tendências. Assim, a diferença de idade, gêneros literários, muito contribuiu para a diversidade do conteúdo.
Os mais jovens discorreram sobre leituras modernas, outros rememoraram histórias com sabor bom de relíquias bem guardadas no baú da memória. As histórias em quadrinhos, os velhos gibis, estão presentes, dando brilho e alegria a muitos textos. O cinema também se faz presente como estímulo à leitura em alguns autores. Ao rememorar suas primeiras leituras, eles vão também desenhando os traços culturais, usos e costumes de um tempo, fazendo com que a coletânea nos ofereça um panorama de leitura entre os anos 40 e 90, do século XX, portanto abrangendo cinquenta anos de  leitura em nosso Estado.
Vale salientar que não houve de nossa parte pretensão de teorizar sobre o assunto,  tendo por objetivo maior trazer, de forma espontânea e descontraída, os livros que figuravam no cardápio desses escritores na segunda metade do século recém-findo.
Esperamos, com este trabalho,  oferecer subsídio para pesquisas no âmbito de leitura, para alunos e professores, em áreas como letras, pedagogia, biblioteconomia, etc.
Sabemos da importância da leitura na educação, principalmente entre crianças e jovens por ser o livro uma porta aberta para a aquisição de outros conhecimentos.
Esta coletânea, através das experiências vividas aqui pelos seus autores, deixa bem evidente a magia e poder da leitura na formação dos jovens em todos os tempos e lugares”.            Neide Medeiros  Santos e Yó Limeira

“ A experiência de ler é a mais profunda que o homem tem em termos de comunicação com o semelhante. Nosso diálogo com os outros é incompleto, limitado por entraves sociais e afetivos. Ninguém, mesmo querendo, diz tudo nem ouve tudo. Ninguém se abre para nós com a amplitude e a intensidade com que os personagens o fazem. Eles não têm segredos e, ao revelar-se, dizem muito de nós. Cada personagem é um confidente e um espelho em que nos miramos com solidariedade e por vezes com horror”.      ( Chico  Viana , P. 41)
  Entre as obras que mais me marcaram,  na primeira fase de leitura,  dos 9 aos 13 anos, eis as Fábulas de Esopo, o legado de Apuleio e o seu Asno de Ouro – que inspirou em outras épocas autores como Bocaccio e Cervantes - , La Fontaine e suas raposas, gansos e lebres; as primeiras perguntas,o que somos,o que é o vácuo,o mundo tem fim, Deus existe, a Terra é mesmo redonda , por que morremos, fundiam-se à lendas  ao real, aos causos e fábulas e a ficção virava uma representação verdadeira do mundo – o Tesouro da Juventude”.  ( Carlos Tavares, P.3)

“Comecei a ler livros propriamente ditos aos doze ou treze anos, quando um vizinho de minha idade, de ascendência austríaca – desses que, sem permissão para as brincadeiras de rua, vivia entre quatro paredes, cumprindo tarefas domésticas e escolares – me alertou para a existência da Biblioteca Pedro Moreno Gondim, na rua Aderbal  Piragibe, também em Jaguaribe.
Não sei por que – provavelmente por puro acaso – os meus primeiros escritores lidos foram os ingleses. Somerset  Maugham foi o primeiríssimo a me tomar a  atenção e a me desviar das brincadeiras infantis, com seus dramas, aliás,  nada infantis, como Um gosto e seis vinténs e O Biombo chinês. Depois veio Graham Greene com suas histórias policiais e políticas. Uma leitura que muito me impressionou foi A Hora final, de Nevil Shute, sobre o fim do mundo depois da explosão da bomba atômica”.                            
                                                   (João Batista de Brito P.116)
 “A poesia se torna presente em minha infância antes dos livros, por meio de várias manifestações orais   com mensagens poéticas. Sendo meu pai músico, me acostumei a ouvir sua coleção de discos, e me emocionava  com os versos musicados.
Nessa época eram choros, sambas, canções nostálgicas, de compositores como Ernesto Nazareth, Chiquinha Gonzaga. O romantismo e ironias de Noel Rosa, os dramas de Vicente Celestino, o lirismo de Ismael Silva.
Em tempos de misticismo, os cânticos nas missas, novenas e procissões. Não deixando de lembrar os repentistas de  cordel, com seus desafios acompanhados pelos acordes monótonos das violas”.
                                                      (Hermano José P. 99)

sábado, 8 de outubro de 2011

Conversas inesquecíveis...



No dia 04-10-2011, participei de um encontro com as crianças do terceiro e quarto anos da escola Adotiva Liberato Valentim, na Costeira do Pirajubaé, em Florianópolis-SC. O encontro aconteceu por conta do Projeto CLUBE DA LEITURA, da prefeitura de Florianópolis, que promove, em uma de suas etapas, a visita do escritor às escolas.Todos os detalhes deste belíssimo projeto de promoção da leitura, coordenado pelas  professoras Heliete S. Milack e Rosane Kreuch podem ser vistos no blog


As alunas da professora Simone Cintra abriram a sessão com uma linda apresentação do livro O pacote que tava no pote. Foi muito mágica esta apresentação e eu nunca vou esquecer este momento.



As paredes do recinto estavam repletas de produções feitas a partir da leitura das obras. Fui presenteada com um baú, dentro do qual havia várias caixas e, na última que abri ,encontrei uma porção de cartinhas da turma expressando opiniões sobre meus livros. As cartinhas são, em verdade, dobraduras lindas, em papéis de várias cores. 





Na hora das perguntas, muitas mãozinhas balançavam no ar, querendo saber uma porção de coisas. A bibliotecária conduziu a “sabatina” com muito tato e sabedoria.
Pude perceber que a moçadinha do Liberato Valentim tem bastante familiaridade com livros, com leitura, com literatura. O encontro com os autores não é uma atividade eventual, é continuidade de um trabalho de exposição aos atos de leitura usualmente praticados na escola, em classe e na biblioteca. Por sinal, a biblioteca tem duas encantadoras de leitores maravilhosas, Adriana e Rosa, que tive a felicidade de conhecer. Adriana é articuladora do projeto Clube da Leitura nesta escola.
Meus aplausos a todos os envolvidos neste trabalho de promoção da leitura e da literatura, que é um trabalho de criação de uma memória de leituras em crianças e jovens. Memória esta que os marcará para o resto da vida e poderá servir como suprimento para a caminhada que farão ao longo de suas existências.