sexta-feira, 27 de maio de 2011

Doses de Sonho - Prêmio Leia Comigo! FNLIJ - 2011

Para Ana Schirley Favero


Ela era bem nova quando a vi entrar na classe do antigo ginásio da Escola Juçá Barbosa Callado, pela primeira vez. Usava uma saia enxadrezada em verde e bege e uma blusa amarelo-queimado. Trazia um arco de vidro nos cabelos e usava sandálias marrons de salto alto. Essa primeira visão dela permanece viva ainda que tenham se passado quarenta anos desde esse dia. Ela própria me diz que não se lembra mais de ter tido essas peças de vestuário e, no entanto, eu lembro tão bem.
Chegou com os braços cheios de livros: era sempre este o seu modo de chegar. Apresentou o livro-texto de Antônio Ravanelli, que usaríamos em sala. Até hoje procuro nos Sebos a coleção, para quinta a oitava séries, deste autor. Usava pouco esse livro, o didático. Era apenas um recurso a mais em seu estoque de feitiços para nos apaixonar pela leitura. Era uma mestra cheia de cuidados com a criação da memória literária de seus alunos. Tinha o formoso costume de ler poemas, crônicas e livros aos capítulos, em voz alta para a classe. Creio ter sido este o maior feitiço de todos. As palavras cresciam na voz dela – até um texto insípido do livro didático de antanho brilhava. Aquelas sessões de leitura me deram as primeiras noções intuitivas dos poderes das palavras, do quanto elas podiam ser arrebatadoras.
Ela própria se deliciava com a leitura que fazia. Não era só a apresentação de um texto: era a repartição de um sonho. Lia em transe, possuída, a muitos palmos do chão carcomido da sala de aula.
Entre as palavras abriam-se vãos mágicos que nos puxavam para o alto como ímãs. Por instantes, esquecíamos as carteiras riscadas, as vidraças em pedaços, a sala feia, o quadro de giz esburacado. Havia pontos em nós que faiscavam de possibilidades. Era como se ela dissesse, através de seus rituais de leitura: “o caminho do sonho é por aqui, crianças!”
Muitos textos que ela trazia para a classe eram datilografados em estêncil, na máquina de escrever, e impressos em mimeógrafo a álcool. Na folha branca, em letra azul, o poema, o conto, a crônica, o excerto da obra vinha a nós com muito capricho e cerimônia. Ela os entregava de carteira em carteira, depois dobrávamos e colávamos no caderno de linguagem.
Após este ritual de dobrar e colar o texto, ela fazia a primeira leitura. O Cajueiro, de Rubem Braga, na leitura dela, caía devagarinho sobre a casa do autor, com tal delicadeza que era impossível não se apaixonar pela árvore, mesmo morando numa região onde nunca se viu um cajueiro.
Com voz apaixonada, ela golpeava a rotina com a flecha luminosa da palavra literária. Esta saraivada de luz nos atingia em cheio e atiçava o desejo de ler e buscar outras leituras onde quer que estivessem.
Apresentou Cecília Meireles à classe com grande enlevo e intróito apaixonado pela vida e obra da escritora. Lia os textos da autora na altura e na maciez apropriadas às palavras de seda da escritora.
Por entre as letras azuis, na folha branca acetinada, surgia o Anjo da noite, o inesquecível guarda-noturno. Na visão poética de Cecília Meireles e na voz da mestra - sintonizada com a respiração da crônica - os passos do guarda ora se afastavam, ora se aproximavam. Em algum parágrafo ele apitava, em outro, um gato retardatário pulava o muro. Sob nossos pés, a rua, sobre nossas cabeças a noite profunda. O guarda-noturno, Anjo da noite, cuidava do sono das gentes. A mestra cuidava de nossa memória literária e abria ruas sem fim em nossa imaginação.
“Vamos ouvir Canção excêntrica”. "Ando à procura de espaço para o desenho da vida/em números me embaraço e perco sempre a medida"... Os versos caíam sobre nós. Os olhos da mestra perscrutavam as feições. O que seria excêntrica? Ela não explicou naquele momento, acho que para não esmaecer o clima lúdico. Ela era toda finura com a palavra poética. Quem precisava saber o que era excêntrico para voar com as asas que saltavam dos olhos dela, tão embriagados no instante lírico como os nossos? Mais tarde ela contou sobre o excêntrico. Entendi que ela própria era assim, de tanto amor pelas palavras. Amor excessivo. Benditos excessos os dela!
As leituras nunca aconteciam num dia marcado. Ela gostava de nos fazer surpresas. Podiam acontecer numa terça-feira calma, numa sexta em que caiu o muro da frente da escola, numa quarta em que o Rio Pelotas transbordou, numa segunda-feira de enormes saudades de alguém que partiu, numa quinta sem nada para comemorar.
Nossos ”corações inquietos e perturbados com a passagem e o tropel das coisas do mundo, umas que vão, outras que vêm, outras que atravessam", como diz no Sermão da Sexagésima, de Pe. Antônio Vieira, esperavam pelos finos repastos que ela ofertava.
Um dia trouxe um livro de Cecília Meireles que era, no formato, tal qual um caderno de desenho. Quando abriu e leu o primeiro poema fiquei atônita: não era um caderno de desenho: era um porta-jóias! A primeira jóia que brilhou foi um colar de coral. Nunca eu tinha visto um poema incendiar. As paredes da sala, há mil anos sem pintura, mergulharam em luminosidade. A profa. leu e releu deliciadamente. A cada leitura, as imagens ficavam mais nítidas, como se ela desse lápis-de-cor à voz e fosse desenhando o poema no ar. Via-se que a mestra era devota daquele colar. Devota do mesmo colar também me tornei.
Do porta-jóias caíam rubis: “Rolam rubis rubros do céu”. "Abre-se a romã/Abre-se a manhã”. Até o apagador, na beira do quadro, cintilava. As aulas eram noturnas, mas, dentro de nós, o sol brilhava.
A linguagem tinha um outro modo de dizer. Um outro semblante: mais vivo e mais luminoso. Para esse outro universo da linguagem a mestra nos levava para passear. Eram momentos de feriados da linguagem referencial. Ela sabia o quanto estes passeios podiam avultar nosso desejo de beleza e de liberdade.
A vida não precisava ser só o puro chão. Outro desenho era possível. "Uma pena a vida ser só isto!" Os versos de Cecília Meireles se aplicam bem aos dias de pobreza simbólica em que vivemos, tempo pródigo em atrativos para os olhos biológicos. A jovem mestra, pressentia que só os olhos biológicos não bastam: "não é bastante não ser cego para ver as árvores e as flores" – como lemos em Fernando Pessoa, seguido de perto por Mário Quintana em "uma vida não basta apenas ser vivida, também precisa ser sonhada." Havia outros modos de ler o mundo que fugiam ao óbvio, e isso ela mostrava ao nos conduzir pelos territórios lúdicos da imaginação.
Tenho saudades da moça com arco-de-vidro nos cabelos, que chegava sempre com os braços cheios de livros e lia, com voz apaixonada, seus autores prediletos, os melhores da literatura nacional e estrangeira. Ainda hoje, quando releio certos livros, ouço-a, ao fundo, ler passagens marcantes, diálogos, descrições. A voz dela ficou gravada a sonho e se mistura com poemas, contos, crônicas narrativas. Não poucas vezes paro para ouvi-la novamente e noto que a voz não envelheceu.

sábado, 4 de dezembro de 2010

Quando a paixão de ler vence a falta - trajetória de uma encantadora de leitores



Rosa Rosani Bazi, animadora da biblioteca do Colégio Mater Dolorum, em Capinzal-SC, é uma educadora em final de carreira, que mantém viva a paixão pela leitura e o entusiasmo dos verdes anos de sua adolescência como professora.

Nem a infância sem livros, nem o afastamento da escola por um longo período, na adolescência, impediu que ela se tornasse uma leitora apaixonada, daquelas que estão sempre inventando feitiços para cativar leitores.
Rosani tem Pós-graduação em Alfabetização e Séries Iniciais e Mestrado em Educação e Gestão Educacional. Hoje, às vésperas da aposentadoria, Rosani pensa em fazer uma Pós-Graduação em Literatura Infantil.

"Minha formação é um tanto quebrada.  iniciei meus estudos aos 7 anos de idade. Naquela época não existia transporte escolar e só os meus irmãos é que poderiam sair de casa. Então tive que sair da escola, e só continuei meus estudos aos 19 anos quando ia me casar. Eu e minha mãe, que também era professora leiga, passamos a estudar juntas e concluímos o curso Logos II, Magistério Emergencial, instituído pelo MEC. Eliminei as matérias em um ano e oito meses. Comecei a graduação em Orientação Educacional na UNIJUI, mas não era bem isso que eu queria então passei para o curso de Pedagogia em Series Iniciais em Passo Fundo –UPF”.
Que lembranças, imagens, vivências, memórias de experiências com livros e leitura você guarda de seu tempo de infância, antes e durante a alfabetização?

Você me pede livros da minha infância, me deu uma vontade de chorar, mas sempre fica uma coisinha mesmo que bem simplesinha nos porões da memória. Ficou uma ilustração bem vaga de uma ratinha muito trabalhadeira que lavava pilhas de pratos. Ganhei o livro  de  meu  pai. As leituras eram só os textos dos livros didáticos. Eu gostava demais de estudar. Eu e meu irmão usávamos muito nossa imaginação. O pé de uva-japão, cheio de galhos,  era o meu prédio, minhas casinhas eram sempre nas árvores.

Meu pai foi meu professor, sem formação, e  com pouco carinho para com os alunos. Eu e meus manos ficamos muito felizes quando ele tirou licença para tratamento de saúde. Pelo menos durante três  meses sentimos o gostinho que era ter outro professor. Ele misturava nossas atitudes de casa com as da escola. Um belo dia recusei-me a secar a louça para minha mãe, ele estava fechando as médias, e me deu nota cinco, em vermelho, no boletim.
Por outro lado, eu gostava de brincar de professora e desenhei muito com carvão, atrás  dos galpões. Até hoje adoro desenhar e tenho facilidade.

 Em seu curso de graduação e pós-graduação, como foi encaminhada a questão da prática de leitura, com vistas a prepará-la para conduzir a prática leitora em classe, com seus alunos?


Na realidade aprendi na prática, quando eu trabalhava na escola multisseriada. Recebemos um material chamado’’ Ciranda de Livros’’. Havia um bom material orientando o professor para motivação das leituras de cada obra.

Também na graduação contei com uma ótima professora chamada Irene Saraiva, que motivou a leitura de muitas obras que me impulsionaram para este caminho de motivação pela leitura. Nas Pós-Graduações também tive  disciplinas que motivaram, de alguma forma, este assunto, não tão aprofundado, mas para quem gosta, já impulsiona.
Em sua história , como professora, como foi a experiência com a formação leitora de seus alunos? Que experiências com leitura foram mais marcantes em sua carreira de professora?

Em minha história como professora, as experiências com a formação do aluno leitor foram muitas e marcantes...e olha que começaram bem lá nos meus primeiros anos de professora, na escola Isolada Nova Esperança.  Eu não estava formada ainda.


Estava eu motivando meus aluninhos para a leitura de um texto, quando notei que as crianças olhavam pela janela e cochichavam, resmungavam, não me davam atenção. Logo depois da janela havia uma cerca de ripas brancas e um pomar de laranjas comuns, umas árvores enormes. Eu insisti para que as crianças prestassem atenção no que eu estava falando naquele momento. Elas até se esforçaram, mas os olhos se voltavam  para fora e escapavam uns gritinhos. Então  fui ver o que estava acontecendo. Era uma enorme cobra verde querendo pegar os filhotes do ninho de um casal de canarinhos desesperados, que gritavam muito.

Então, sem pensar duas vezes, fomos todos lá (todas as séries, meninas e meninos). Os meninos pegaram uma enorme vara de taquara, usada para tirar laranjas, treparam na laranjeira e espantaram a cobra. Iam caindo laranjas e as meninas abriam as saias e iam colocando as laranjas. Mas a cobra poderia cair também. As meninas gritavam e corriam. Entrei tanto no clima que nem me preocupei (no caso de um aluno cair ou se machucar). Partimos para um longo estudo no pátio mesmo. As crianças trouxeram os livros de ciências, observaram se a cobra era venenosa, comparando com os desenhos do livro. Formou-se um círculo de alunos interessados em aprender, todos envolvidos com os resultados das pesquisas in loco. Eu estava animadíssima com os resultados. Depois o lanche foi aquela matemática... quantas laranjas para cada aluno... e que lanche gostoso! Só alegria! Os passarinhos estavam felizes e nós também. A cobra verde coitada, serviu de cobaia para estudos!


E como foi fácil escrever sobre o que havia acontecido! A leitura então foi ótima. Foi ali, naquele momento, que me desprendi de apresentar conteúdos prontos e passei a observar mais os interesses dos alunos e comecei a trabalhar de forma diferente. Estudávamos no interior, tínhamos tantas riquezas naturais e ficávamos forçando os coitados a compreender conceitos, quando podíamos formar juntos estes conceitos. Partimos para passeios, visitas. Trabalhei muito e de forma diferente, e os resultados também foram diferentes. Passei a acreditar em meu potencial e no dos meus alunos. Soltei a imaginação. ...

Os passeios passaram a ser constantes, para conhecer nossa comunidade. Entrevistávamos as senhoras e senhores mais idosos para entendermos melhor como foi povoada nossa pequena comunidade de Nova Esperança. Pesquisamos os animais que havia, os rios, as matas e os cuidados com a natureza, e a transformação que fez o homem. A Matemática, estudávamos na nossa horta, as medidas dos canteiros, subtração, adição, divisão, multiplicação, etc . O mais gostoso mesmo eram as divisões, feitas com uma varinha no pátio, para ver quantos tomates cada aluno levaria para sua casa. E mais, amávamos aquela escola! Quando chegava dezembro, marcávamos: a cada 15 dias, do período das férias, todos os alunos iam até a escola junto comigo para a limpeza da escola e dos arredores e para colher verduras e conservar a horta limpa e bonita.


Como tínhamos poucos livros para leitura, então participávamos de um programa de rádio bem cedo, na Rádio Capinzal. Frei Davi fazia umas perguntas e quem respondesse, concorria a livros. Muitos dos meus alunos ganharam livros e ficavam felizes e eu também. Lembro que a Escola não tinha a biblia e no Natal a pergunta era: O que significa o Natal? Todos os alunos, de primeira a quarta série participaram. Cada aluno fez suas colocações e muitos outros ouvintes participaram também e quem ganhou foi a escola de Nova Esperança. O Frei leu a carta no rádio. Os pais vinham orgulhosos contar, agradecendo o meu apoio. Imagine a minha alegria. Eles escreviam , liam, e ouviam, e toda a comunidade ouvia.


Em sala de aula lembro de uma aluna que, depois que acabei de contar uma história, olhou séria pela janela e me perguntou: Prof., tem bruxa naquele mato?

Infelizmente esta escola fechou por falta de alunos, mas tive tanto apoio da Epagre e da Coordenação que fui transferida e promovida para trabalhar em uma escola Básica como secretária. Mesmo como secretária continuei com meus projetos extra–classe: horta, mini-estação metereológica, artesanato, bordado, etc,...Durante o tempo nessa escola é que resolvi fazer a graduação em Passo Fundo-RS. Só tenho boas recordações desta escola tão maravilhosa, que tinha uma direção comprometida com a comunidade.


Em 1997, iniciei, minhas atividades em Capinzal(vim para cá para cuidar de minha mãe, que estava muito doente). Nosso querido Uruguai também sofreu com a barragem de Itá, ficando a comunidade reduzida. Como eu era efetiva no Estado, transferi-me para Capinzal. Não me acostumei e tive depressão, mas hoje, graças a Deus, e a um montão de amigos que conquistei, sou feliz aqui e não saberia fazer outra coisa a não ser motivar leitores. Amo o que faço, adoro trabalhar, não posso ficar quieta.
Como dinamizadora da biblioteca, você faz feitiços literários o tempo todo para seduzir leitores. Como tem sido essa experiência de encantadora de leitores na biblioteca do Mater Dolorum?


Como dinamizadora da biblioteca procuro planejar, organizar o que temos para oferecer à clientela. Já percebi que devo explorar os cinco sentidos para motivar a leitura e precisa muito trabalho para conseguir algum resultado. No mês de novembro estou fazendo um trabalho explorando os livros de imagem. Mostro as ilustrações e depois exploro o texto sem palavras. É de arrepiar o pelo! As turmas mais bagunceiras ficam em silêncio vendo as ilustrações passarem e querem demonstrar que entenderem a história. Tenho uma salinha só com os apetrechos: caixas, cineminhas, cenários, flanelógrafo,etc.  Os livros são explorados com diferentes recursos e matariais.

Cada vez que chega livro novo faço exposição, ampla divulgação, cartazes, exposição de tela, bordados,etc...

Trabalhar na biblioteca faz renascer em mim meu lado criativo e passei a colocar meus projetos em ação, aos poucos. Mas hoje posso dizer que o espaço da biblioteca é o melhor espaço para as crianças. É o ponto de encontro. Procuro inovar, dar vida para o espaço.

O projeto ‘’EU CONTO, TU CONTAS’ é um sucesso. Vou avaliando e as respostas me realizam. Até os alunos da 6ª série adoram ouvir histórias. Os alunos me dizem: prof. tem que continuar ano que vem. Com certeza tudo o que deu certo vamos continuar. No inverno fiz, a sopa de pedras do Pedro Malassartes, O chá das 17 horas,  era uma tarde fria... Das delícias todos provaram e o feitiço mesmo é a  imaginação ....estava quentinho e não tinha fogão....

 A leitura do livro O rei que tinha orelhas de burro  foi um sucesso. QUEM SONHA ACORDA, A FADA QUE SOLUÇAVA, vieram com CD. Coloquei num amplificador, fiz uns visuais bem coloridos. Preparei um estander para expor as ilustrações,  um espaço privilegiado com cadeiras estofadas e um ambiente bem agradável...era só curtir....da primeira até a sétima série adoraram...e eu mais ainda. Sem contar que tivemos histórias com fantoches e convidados especiais.

O destaque, em 2010, foi o projeto EU CONTO, TU CONTAS. Todos os alunos que contaram histórias foram agraciados com um livro contendo uma dedicatória.

Tudo isso com o objetivo de formar o gosto pela leitura , a paixão de ler e sentir que é bom...é interessante e necessário.













 O Projeto EU CONTO, TU CONTAS envolve cinquenta títulos de literatura infanto-juvenil, dentre os quais: