domingo, 23 de setembro de 2012
quarta-feira, 5 de setembro de 2012
Quando a imaginação dá as tintas....
Vinicius Linné ( Habilis, 2012)
Em A menina que podia voar, o autor, Vinicius Linné, surpreende
já na dedicatória:“para uma borboleta,
uma mariposa e um mandarim”.
A história é narrada, ou melhor,
cacarejada por uma galinha mais velha às galinhas mais moças. Não se trata, contudo, de uma história sobre galinhas, mas sobre gente.
A menina que podia voar e um dia
voou, é aluna de uma professora autoritária,
que separou a classe em “aviões”, “carros” e “carroças”, outro nome para
fortes, médios e fracos. Estigmatizada como lenta porque não atende às
expectativas da professora, a menina e seu amigo, também tido como lento,
sentam-se na última fila e, deles, nada
espera a “mestra”.
De tanto ouvir que é lenta, a menina
incorpora essa imagem. Porém, ela tem à sua disposição os campos imensos da imaginação. Nesse território de liberdade,
o estigma não a alcança. Levada pelo
vento, voa para muito longe do chão. Entre passarinhos e borboletas brinca de
esconde-esconde, pega-pega e passa-anel. Chega à fábrica de tinta das nuvens e
recolhe tintas de todas as cores. Quando volta à terra pede à madrinha para pintar um retrato dela, da menina, com as tintas que trouxera do céu. Mas a madrinha não acreditou nos voos da
menina e nem que as tintas que trouxera
eram tintas celestes.
Perante a madrinha não conseguiu voar.
Mesmo que voasse, ao que tudo indica, a
mulher não enxergaria, pois tem o olhar
viciado na rotina, pouco afeita a voos e sobressaltos. Porém, a sós com sua imaginação, a menina voou e
brincou de viver em outros mundos, onde o que é tocado pela linguagem se
transforma em possibilidade de ser.
Um texto forte que traz um olhar sobre
a diferença e o sofrimento de quem não
cabe nos padrões eleitos como “normais”, aceitáveis ou desejáveis pela
sociedade de humanos. É também um texto que celebra os poderes da imaginação,
como chão mágico onde cresce o sonho e a vontade de viver, a despeito da realidade
esmagadora como a da personagem. Felizmente, “ela podia voar”....
domingo, 1 de julho de 2012
Palavras - a fisionomia poética
“Poesia é um entrosamento de palavras que se juntam e deixam você
fascinado”. Ouvi de André, 5º série, esta
definição de poesia. Dita e vivida: o menino deliciava-se com seus
poemas preferidos. Exerciam tal fascínio sobre ele que dezenas de vezes os lia,
tomado de encanto. A Estrela, de Manuel
Bandeira, estava entre os seus preferidos. Aquela “estrela tão alta e tão fria”
baixava das alturas na palma da mão do menino:
que coisas primeiras e penúltimas estrelavam na alma dele cada vez que
lia de novo? – eu me perguntava, vendo-o ler para a classe toda. Lia outros
também, porém, este o tinha devorado inteiramente.
“Poesia é música? É que nem música!”
- foi a conclusão de Ramon ao ouvir os poemas do livro Ou Isto Ou
aquilo, de Cecília Meireles. Patrícia, em processo de alfabetização, descobre O
Jogo e a Bola, do mesmo livro: “Fui pra casa e tentei ler sozinha. Fiquei
tentando até tarde, até que consegui”. Todos os dias pedia-me para ler de novo
este poema e ouvia-o, enlevada, o olho indo e vindo em passeio pela atmosfera
lúdica do texto.
Patrícia repetia a 1º série há cinco anos quando me propus a ajudá-la.
Não tenho dúvidas de que a poesia contribuiu para que ela deixasse para trás o
fastio dos textos mecânicos da cartilha, repetidos anos a fio sem resultados,
causando-lhe um enorme prejuízo à auto-estima:
“ não adianta você querer me ensinar a ler, eu não vou aprender, não tenho
cabeça para o estudo” – fala que introjetara de tanto ouvir os adultos próximos
repetirem.
Ao atualizarmos juntas a beleza, a emoção, a musicalidade da palavra poética
ela foi percebendo a diferença e desejando aprender o mais rápido possível para
ler sozinha aqueles textos que transbordavam de ludismo.
As crianças sentem que na poesia as palavras dizem mais, dizem diferente; na poesia as palavras brincam de
roda e, ao rodar, emitem faíscas, cintilam, “banhadas por uma luz antiqüíssima
e ao mesmo tempo acabadas de nascer”.
Arrisco-me a afirmar, com base na experiência, que é muito raro uma
criança descobrir a poesia e não se encantar. Infelizmente o encontro da criança
com a poesia ainda é muito raro. Mas,
quando ele acontece, a corrente de
paixão pela leitura se fortalece e é comum que elas desejem ler outros textos
poéticos.
Se poucos livros de poesia houver na biblioteca da escola, o
bibliotecário poderá se ver em apuros, pois, lançado o pacto lúdico com a
poesia, os meninos e meninas envolvidos costumam ser ( felizmente) muito
insistentes e, se já tiverem lido todo o acervo ( em geral escasso), virão à
porta da biblioteca todo santo dia perguntar: “chegou livro novo de poesia?”
A insistência pode virar algo mais forte a ponto de alguns livros de
autores muito amados serem disputados a tapas. Alguns resolvem que não vão mais
devolver o livro: “Ah, perdi!”, “Deixei na casa da vó”, “Ficou em outra
cidade”. Tudo pra não se separar do livro de poesia, livro que, afinal de
contas, brinca, canta, dança e embala, como diz a educadora Ana Schirley:
poesia é balanço nos galhos da goiabeira, ou como nos ilumina José Paulo Paes:
Poesia
é brincar com palavras
como se brinca
com bola, papagaio, pião.
Só que
bola, papagaio, pião
de tanto brincar
se gastam.
As palavras não:
quanto mais se brinca
com elas
mais novas ficam.
Como a água do rio
que é água sempre nova.
Como cada dia
que é sempre um novo dia.
Vamos brincar de poesia?
Em reinos como o da literatura, da poesia, é a palavra sonhada que nos recebe à porta. Palavra mutável, rica, dinâmica, plural:
Abre-se a romã
Abre-se a manhã.
Palavra sonhada, vida sonhada. Então o poeta Mário Quintana já não disse
que “uma vida não basta apenas ser vivida também precisa ser sonhada”? Voar
numa revoada de poemas: mudar de lado o coração para pulsar no justo ritmo de
uma palavra sonhada, descobrir o “outro” de si o “outro” dos mundos, trazer
para perto as terras estranhas, remotas ou obscuras, alargar o olhar pra lá, pra cá, pra além...
Quando a palavra é tocada pela poesia
se potencializa e cria a vida nova. As nomeações simbólicas têm o poder
de subverter a ordem linear fixadora de sentidos. Liberta dos elos opressivos
das convenções da lógica racional, a palavra reconquista a face mágica, o vigor
mítico das origens e mostra-se em plenitude.
“A palavra, finalmente em liberdade, mostra todas as suas entranhas, os
seus sentidos e alusões, como um fruto maduro ou um foguete no momento de
explodir no céu” ((Octávio Paz, 1992, p.26)
É outro o semblante da palavra na poesia, e este semblante a criança
reconhece e rapidamente com ele se identifica. Huizinga (2000, p.133) dá
ciência de que “ a poesia se exerce no interior da região lúdica do espírito,
num mundo próprio para ela criado pelo espírito, no qual as coisas possuem uma
fisionomia inteiramente diferente da que apresentam na vida comum, estão
ligadas por relações diferentes das da lógica e da causalidade”. O saber
intuitivo, o ludismo sonoro e semântico da poesia encontram ressonância no solo
lúdico da infância, por isso, é recebida com encantamento e adesão afetiva.
Quando o aluno da primeira série da professora Maria Salete Ramos,
interrompeu a leitura do livro de poemas que ela estava apresentando à turma,
ficou de pé, de repente, e gritou: “Esse livro eu quero ler! É esse mesmo! É esse que eu quero ler!”-
reconheceu, com surpresa, o semblante mágico dos textos e nem conseguiu esperar
a leitura acabar para expressar sua emoção, seu fascínio, e o desejo de tomar
nas mãos o livro e provar por ele mesmo do repasto lúdico.
UM POEMA QUE
INCENDEIA
COLAR DE CAROLINA
Com seu coral de coral
Carolina
corre por entre as colunas
da colina
O colar de Carolina
colore o colo de cal,
torna corada a menina.
E o sol, vendo aquela cor
do colar de Carolina,
Põe coroas de coral
nas colunas da colina.
Tive uma aluna no curso de magistério que, ao ler este poema de Cecília
Meireles, declarou que se via correndo junto com Carolina “por entre as colunas
da colina” e que, sempre que pensava no poema, se via assim. Tinha se atirado
para dentro do texto de corpo inteiro.
Como outros textos do livro Ou Isto Ou Aquilo, Colar de Carolina é um
poema-aparição, pela força evocadora da imagem – a palavra encarnada, recriando
a experiência.
O jogo sonoro, já no título, é um princípio de espanto que vira encanto
ante a visão do poema surgindo entre mágico e incandescente. A cor do coral se
mistura à mobilidade das coisas,
esparrama-se pelo colo da menina, confunde-se com o estado de alma.
Em “colunas da colina” a combinação sonora e imagética atinge o máximo de
efeito: o fonema “l” aponta para os ares dando a idéia de altura.
Palavra-visão: presentifica o ser nomeado, ao mesmo tempo que o reveste com o
pó criativo, dando-lhe a face estranha que provoca a surpresa e o prazer.
O sol completa a incandescência:
põe coroas de coral
nas colunas da colina
E eis que o poema não termina: incendeia!
As palavras criadoras desalinham o real para realinhá-lo sob a ótica do imaginário
em que contam a liberdade, o prazer, a invenção.
sexta-feira, 30 de dezembro de 2011
Primeiras leituras
De João Pessoa-PB chegou este livro, organizado pela querida amiga Neide Medeiros Santos e por Yó Limeira.
Encantei-me com os depoimentos de escritores paraibanos sobre suas memórias literárias e modos de se relacionar com a leitura desde a infância.
A família e a escola aparecem com freqüência nas histórias de iniciação literária dos autores, ora com acertos, ora com equívocos no modo de criar a aproximação com os livros.
Tendo vivido em casas cheias de livros, ou com a completa ausência deles, os autores criaram desde cedo, vínculos fortes com as palavras, através dos repertórios de leitura disponíveis em seu tempo e ao seu alcance ( Clássicos nacionais e estrangeiros, Coleção Tesouro da Juventude, Almanaque Fontoura, histórias em quadrinhos, livrinhos de faroeste, narrativas bíblicas, contos de fadas, lendas do folclore brasileiro, Cordel, dentre outros recursos de leitura citados ).
O que emociona é a paixão com que os depoimentos falam da “felicidade da leitura” e o modo como os autores se entregam à felicidade de ser leitor.
Parabéns à Neide Medeiros Santos e à Yó Limeira, organizadoras da excelente obra.
“ Há cerca de cinco anos organizamos a coletânea “Memórias Rendilhadas” com depoimentos de quinze escritoras paraibanas ou radicadas aqui no Estado, com suas memórias de leituras na infância e adolescência. A boa receptividade do livro nos fez pensar numa versão agora de nossos companheiros escritores sobre seus “alumbramentos” pelas leituras nessa mesma fase da vida.
O título Confesso que li, que nos remete ao livro autobiográfico de Pablo Neruda, foi uma sugestão do poeta Cláudio Limeira por nós logo acatada no primeiro momento.
Não é tão fácil, num universo tão vasto de escritores, selecionar tão poucos, dado o espaço exíguo da coletânea. Procuramos tecer um painel que pudesse abranger poetas, ficcionistas, cronistas, e ensaístas, observando a mais diversas tendências. Assim, a diferença de idade, gêneros literários, muito contribuiu para a diversidade do conteúdo.
Os mais jovens discorreram sobre leituras modernas, outros rememoraram histórias com sabor bom de relíquias bem guardadas no baú da memória. As histórias em quadrinhos, os velhos gibis, estão presentes, dando brilho e alegria a muitos textos. O cinema também se faz presente como estímulo à leitura em alguns autores. Ao rememorar suas primeiras leituras, eles vão também desenhando os traços culturais, usos e costumes de um tempo, fazendo com que a coletânea nos ofereça um panorama de leitura entre os anos 40 e 90, do século XX, portanto abrangendo cinquenta anos de leitura em nosso Estado.
Vale salientar que não houve de nossa parte pretensão de teorizar sobre o assunto, tendo por objetivo maior trazer, de forma espontânea e descontraída, os livros que figuravam no cardápio desses escritores na segunda metade do século recém-findo.
Esperamos, com este trabalho, oferecer subsídio para pesquisas no âmbito de leitura, para alunos e professores, em áreas como letras, pedagogia, biblioteconomia, etc.
Sabemos da importância da leitura na educação, principalmente entre crianças e jovens por ser o livro uma porta aberta para a aquisição de outros conhecimentos.
Esta coletânea, através das experiências vividas aqui pelos seus autores, deixa bem evidente a magia e poder da leitura na formação dos jovens em todos os tempos e lugares”. Neide Medeiros Santos e Yó Limeira
“ A experiência de ler é a mais profunda que o homem tem em termos de comunicação com o semelhante. Nosso diálogo com os outros é incompleto, limitado por entraves sociais e afetivos. Ninguém, mesmo querendo, diz tudo nem ouve tudo. Ninguém se abre para nós com a amplitude e a intensidade com que os personagens o fazem. Eles não têm segredos e, ao revelar-se, dizem muito de nós. Cada personagem é um confidente e um espelho em que nos miramos com solidariedade e por vezes com horror”. ( Chico Viana , P. 41)
Entre as obras que mais me marcaram, na primeira fase de leitura, dos 9 aos 13 anos, eis as Fábulas de Esopo, o legado de Apuleio e o seu Asno de Ouro – que inspirou em outras épocas autores como Bocaccio e Cervantes - , La Fontaine e suas raposas, gansos e lebres; as primeiras perguntas,o que somos,o que é o vácuo,o mundo tem fim, Deus existe, a Terra é mesmo redonda , por que morremos, fundiam-se à lendas ao real, aos causos e fábulas e a ficção virava uma representação verdadeira do mundo – o Tesouro da Juventude”. ( Carlos Tavares, P.3)
“Comecei a ler livros propriamente ditos aos doze ou treze anos, quando um vizinho de minha idade, de ascendência austríaca – desses que, sem permissão para as brincadeiras de rua, vivia entre quatro paredes, cumprindo tarefas domésticas e escolares – me alertou para a existência da Biblioteca Pedro Moreno Gondim, na rua Aderbal Piragibe, também em Jaguaribe.
Não sei por que – provavelmente por puro acaso – os meus primeiros escritores lidos foram os ingleses. Somerset Maugham foi o primeiríssimo a me tomar a atenção e a me desviar das brincadeiras infantis, com seus dramas, aliás, nada infantis, como Um gosto e seis vinténs e O Biombo chinês. Depois veio Graham Greene com suas histórias policiais e políticas. Uma leitura que muito me impressionou foi A Hora final, de Nevil Shute, sobre o fim do mundo depois da explosão da bomba atômica”.
(João Batista de Brito P.116)
(João Batista de Brito P.116)
Nessa época eram choros, sambas, canções nostálgicas, de compositores como Ernesto Nazareth, Chiquinha Gonzaga. O romantismo e ironias de Noel Rosa, os dramas de Vicente Celestino, o lirismo de Ismael Silva.
Em tempos de misticismo, os cânticos nas missas, novenas e procissões. Não deixando de lembrar os repentistas de cordel, com seus desafios acompanhados pelos acordes monótonos das violas”.
(Hermano José P. 99)
sábado, 8 de outubro de 2011
Conversas inesquecíveis...
No dia 04-10-2011, participei de um encontro com as crianças do terceiro e quarto anos da escola Adotiva Liberato Valentim, na Costeira do Pirajubaé, em Florianópolis-SC. O encontro aconteceu por conta do Projeto CLUBE DA LEITURA, da prefeitura de Florianópolis, que promove, em uma de suas etapas, a visita do escritor às escolas.Todos os detalhes deste belíssimo projeto de promoção da leitura, coordenado pelas professoras Heliete S. Milack e Rosane Kreuch podem ser vistos no blog
As alunas da professora Simone Cintra abriram a sessão com uma linda apresentação do livro O pacote que tava no pote. Foi muito mágica esta apresentação e eu nunca vou esquecer este momento.
As paredes do recinto estavam repletas de produções feitas a partir da leitura das obras. Fui presenteada com um baú, dentro do qual havia várias caixas e, na última que abri ,encontrei uma porção de cartinhas da turma expressando opiniões sobre meus livros. As cartinhas são, em verdade, dobraduras lindas, em papéis de várias cores.


Na hora das perguntas, muitas mãozinhas balançavam no ar, querendo saber uma porção de coisas. A bibliotecária conduziu a “sabatina” com muito tato e sabedoria.
Pude perceber que a moçadinha do Liberato Valentim tem bastante familiaridade com livros, com leitura, com literatura. O encontro com os autores não é uma atividade eventual, é continuidade de um trabalho de exposição aos atos de leitura usualmente praticados na escola, em classe e na biblioteca. Por sinal, a biblioteca tem duas encantadoras de leitores maravilhosas, Adriana e Rosa, que tive a felicidade de conhecer. Adriana é articuladora do projeto Clube da Leitura nesta escola.
Meus aplausos a todos os envolvidos neste trabalho de promoção da leitura e da literatura, que é um trabalho de criação de uma memória de leituras em crianças e jovens. Memória esta que os marcará para o resto da vida e poderá servir como suprimento para a caminhada que farão ao longo de suas existências.
sexta-feira, 27 de maio de 2011
Doses de Sonho - Prêmio Leia Comigo! FNLIJ - 2011

Para Ana Schirley Favero
Ela era bem nova quando a vi entrar na classe do antigo ginásio da Escola Juçá Barbosa Callado, pela primeira vez. Usava uma saia enxadrezada em verde e bege e uma blusa amarelo-queimado. Trazia um arco de vidro nos cabelos e usava sandálias marrons de salto alto. Essa primeira visão dela permanece viva ainda que tenham se passado quarenta anos desde esse dia. Ela própria me diz que não se lembra mais de ter tido essas peças de vestuário e, no entanto, eu lembro tão bem.
Ela era bem nova quando a vi entrar na classe do antigo ginásio da Escola Juçá Barbosa Callado, pela primeira vez. Usava uma saia enxadrezada em verde e bege e uma blusa amarelo-queimado. Trazia um arco de vidro nos cabelos e usava sandálias marrons de salto alto. Essa primeira visão dela permanece viva ainda que tenham se passado quarenta anos desde esse dia. Ela própria me diz que não se lembra mais de ter tido essas peças de vestuário e, no entanto, eu lembro tão bem.
Chegou com os braços cheios de livros: era sempre este o seu modo de chegar. Apresentou o livro-texto de Antônio Ravanelli, que usaríamos em sala. Até hoje procuro nos Sebos a coleção, para quinta a oitava séries, deste autor. Usava pouco esse livro, o didático. Era apenas um recurso a mais em seu estoque de feitiços para nos apaixonar pela leitura. Era uma mestra cheia de cuidados com a criação da memória literária de seus alunos. Tinha o formoso costume de ler poemas, crônicas e livros aos capítulos, em voz alta para a classe. Creio ter sido este o maior feitiço de todos. As palavras cresciam na voz dela – até um texto insípido do livro didático de antanho brilhava. Aquelas sessões de leitura me deram as primeiras noções intuitivas dos poderes das palavras, do quanto elas podiam ser arrebatadoras.
Ela própria se deliciava com a leitura que fazia. Não era só a apresentação de um texto: era a repartição de um sonho. Lia em transe, possuída, a muitos palmos do chão carcomido da sala de aula.
Entre as palavras abriam-se vãos mágicos que nos puxavam para o alto como ímãs. Por instantes, esquecíamos as carteiras riscadas, as vidraças em pedaços, a sala feia, o quadro de giz esburacado. Havia pontos em nós que faiscavam de possibilidades. Era como se ela dissesse, através de seus rituais de leitura: “o caminho do sonho é por aqui, crianças!”
Muitos textos que ela trazia para a classe eram datilografados em estêncil, na máquina de escrever, e impressos em mimeógrafo a álcool. Na folha branca, em letra azul, o poema, o conto, a crônica, o excerto da obra vinha a nós com muito capricho e cerimônia. Ela os entregava de carteira em carteira, depois dobrávamos e colávamos no caderno de linguagem.
Após este ritual de dobrar e colar o texto, ela fazia a primeira leitura. O Cajueiro, de Rubem Braga, na leitura dela, caía devagarinho sobre a casa do autor, com tal delicadeza que era impossível não se apaixonar pela árvore, mesmo morando numa região onde nunca se viu um cajueiro.
Com voz apaixonada, ela golpeava a rotina com a flecha luminosa da palavra literária. Esta saraivada de luz nos atingia em cheio e atiçava o desejo de ler e buscar outras leituras onde quer que estivessem.
Apresentou Cecília Meireles à classe com grande enlevo e intróito apaixonado pela vida e obra da escritora. Lia os textos da autora na altura e na maciez apropriadas às palavras de seda da escritora.
Por entre as letras azuis, na folha branca acetinada, surgia o Anjo da noite, o inesquecível guarda-noturno. Na visão poética de Cecília Meireles e na voz da mestra - sintonizada com a respiração da crônica - os passos do guarda ora se afastavam, ora se aproximavam. Em algum parágrafo ele apitava, em outro, um gato retardatário pulava o muro. Sob nossos pés, a rua, sobre nossas cabeças a noite profunda. O guarda-noturno, Anjo da noite, cuidava do sono das gentes. A mestra cuidava de nossa memória literária e abria ruas sem fim em nossa imaginação.
“Vamos ouvir Canção excêntrica”. "Ando à procura de espaço para o desenho da vida/em números me embaraço e perco sempre a medida"... Os versos caíam sobre nós. Os olhos da mestra perscrutavam as feições. O que seria excêntrica? Ela não explicou naquele momento, acho que para não esmaecer o clima lúdico. Ela era toda finura com a palavra poética. Quem precisava saber o que era excêntrico para voar com as asas que saltavam dos olhos dela, tão embriagados no instante lírico como os nossos? Mais tarde ela contou sobre o excêntrico. Entendi que ela própria era assim, de tanto amor pelas palavras. Amor excessivo. Benditos excessos os dela!
As leituras nunca aconteciam num dia marcado. Ela gostava de nos fazer surpresas. Podiam acontecer numa terça-feira calma, numa sexta em que caiu o muro da frente da escola, numa quarta em que o Rio Pelotas transbordou, numa segunda-feira de enormes saudades de alguém que partiu, numa quinta sem nada para comemorar.
Nossos ”corações inquietos e perturbados com a passagem e o tropel das coisas do mundo, umas que vão, outras que vêm, outras que atravessam", como diz no Sermão da Sexagésima, de Pe. Antônio Vieira, esperavam pelos finos repastos que ela ofertava.
Um dia trouxe um livro de Cecília Meireles que era, no formato, tal qual um caderno de desenho. Quando abriu e leu o primeiro poema fiquei atônita: não era um caderno de desenho: era um porta-jóias! A primeira jóia que brilhou foi um colar de coral. Nunca eu tinha visto um poema incendiar. As paredes da sala, há mil anos sem pintura, mergulharam em luminosidade. A profa. leu e releu deliciadamente. A cada leitura, as imagens ficavam mais nítidas, como se ela desse lápis-de-cor à voz e fosse desenhando o poema no ar. Via-se que a mestra era devota daquele colar. Devota do mesmo colar também me tornei.
Do porta-jóias caíam rubis: “Rolam rubis rubros do céu”. "Abre-se a romã/Abre-se a manhã”. Até o apagador, na beira do quadro, cintilava. As aulas eram noturnas, mas, dentro de nós, o sol brilhava.
A linguagem tinha um outro modo de dizer. Um outro semblante: mais vivo e mais luminoso. Para esse outro universo da linguagem a mestra nos levava para passear. Eram momentos de feriados da linguagem referencial. Ela sabia o quanto estes passeios podiam avultar nosso desejo de beleza e de liberdade.
A vida não precisava ser só o puro chão. Outro desenho era possível. "Uma pena a vida ser só isto!" Os versos de Cecília Meireles se aplicam bem aos dias de pobreza simbólica em que vivemos, tempo pródigo em atrativos para os olhos biológicos. A jovem mestra, pressentia que só os olhos biológicos não bastam: "não é bastante não ser cego para ver as árvores e as flores" – como lemos em Fernando Pessoa, seguido de perto por Mário Quintana em "uma vida não basta apenas ser vivida, também precisa ser sonhada." Havia outros modos de ler o mundo que fugiam ao óbvio, e isso ela mostrava ao nos conduzir pelos territórios lúdicos da imaginação.
Tenho saudades da moça com arco-de-vidro nos cabelos, que chegava sempre com os braços cheios de livros e lia, com voz apaixonada, seus autores prediletos, os melhores da literatura nacional e estrangeira. Ainda hoje, quando releio certos livros, ouço-a, ao fundo, ler passagens marcantes, diálogos, descrições. A voz dela ficou gravada a sonho e se mistura com poemas, contos, crônicas narrativas. Não poucas vezes paro para ouvi-la novamente e noto que a voz não envelheceu.
sábado, 4 de dezembro de 2010
Quando a paixão de ler vence a falta - trajetória de uma encantadora de leitores
Rosa Rosani Bazi, animadora da biblioteca do Colégio Mater Dolorum, em Capinzal-SC, é uma educadora em final de carreira, que mantém viva a paixão pela leitura e o entusiasmo dos verdes anos de sua adolescência como professora.
Nem a infância sem livros, nem o afastamento da escola por um longo período, na adolescência, impediu que ela se tornasse uma leitora apaixonada, daquelas que estão sempre inventando feitiços para cativar leitores.
Rosani tem Pós-graduação em Alfabetização e Séries Iniciais e Mestrado em Educação e Gestão Educacional. Hoje, às vésperas da aposentadoria, Rosani pensa em fazer uma Pós-Graduação em Literatura Infantil.
"Minha formação é um tanto quebrada. iniciei meus estudos aos 7 anos de idade. Naquela época não existia transporte escolar e só os meus irmãos é que poderiam sair de casa. Então tive que sair da escola, e só continuei meus estudos aos 19 anos quando ia me casar. Eu e minha mãe, que também era professora leiga, passamos a estudar juntas e concluímos o curso Logos II, Magistério Emergencial, instituído pelo MEC. Eliminei as matérias em um ano e oito meses. Comecei a graduação em Orientação Educacional na UNIJUI, mas não era bem isso que eu queria então passei para o curso de Pedagogia em Series Iniciais em Passo Fundo –UPF”.
Que lembranças, imagens, vivências, memórias de experiências com livros e leitura você guarda de seu tempo de infância, antes e durante a alfabetização?Você me pede livros da minha infância, me deu uma vontade de chorar, mas sempre fica uma coisinha mesmo que bem simplesinha nos porões da memória. Ficou uma ilustração bem vaga de uma ratinha muito trabalhadeira que lavava pilhas de pratos. Ganhei o livro de meu pai. As leituras eram só os textos dos livros didáticos. Eu gostava demais de estudar. Eu e meu irmão usávamos muito nossa imaginação. O pé de uva-japão, cheio de galhos, era o meu prédio, minhas casinhas eram sempre nas árvores.
Meu pai foi meu professor, sem formação, e com pouco carinho para com os alunos. Eu e meus manos ficamos muito felizes quando ele tirou licença para tratamento de saúde. Pelo menos durante três meses sentimos o gostinho que era ter outro professor. Ele misturava nossas atitudes de casa com as da escola. Um belo dia recusei-me a secar a louça para minha mãe, ele estava fechando as médias, e me deu nota cinco, em vermelho, no boletim.
Por outro lado, eu gostava de brincar de professora e desenhei muito com carvão, atrás dos galpões. Até hoje adoro desenhar e tenho facilidade.
Em seu curso de graduação e pós-graduação, como foi encaminhada a questão da prática de leitura, com vistas a prepará-la para conduzir a prática leitora em classe, com seus alunos? Na realidade aprendi na prática, quando eu trabalhava na escola multisseriada. Recebemos um material chamado’’ Ciranda de Livros’’. Havia um bom material orientando o professor para motivação das leituras de cada obra.
Também na graduação contei com uma ótima professora chamada Irene Saraiva, que motivou a leitura de muitas obras que me impulsionaram para este caminho de motivação pela leitura. Nas Pós-Graduações também tive disciplinas que motivaram, de alguma forma, este assunto, não tão aprofundado, mas para quem gosta, já impulsiona.
Em sua história , como professora, como foi a experiência com a formação leitora de seus alunos? Que experiências com leitura foram mais marcantes em sua carreira de professora?
Em sua história , como professora, como foi a experiência com a formação leitora de seus alunos? Que experiências com leitura foram mais marcantes em sua carreira de professora?
Em minha história como professora, as experiências com a formação do aluno leitor foram muitas e marcantes...e olha que começaram bem lá nos meus primeiros anos de professora, na escola Isolada Nova Esperança. Eu não estava formada ainda.
Estava eu motivando meus aluninhos para a leitura de um texto, quando notei que as crianças olhavam pela janela e cochichavam, resmungavam, não me davam atenção. Logo depois da janela havia uma cerca de ripas brancas e um pomar de laranjas comuns, umas árvores enormes. Eu insisti para que as crianças prestassem atenção no que eu estava falando naquele momento. Elas até se esforçaram, mas os olhos se voltavam para fora e escapavam uns gritinhos. Então fui ver o que estava acontecendo. Era uma enorme cobra verde querendo pegar os filhotes do ninho de um casal de canarinhos desesperados, que gritavam muito.
Então, sem pensar duas vezes, fomos todos lá (todas as séries, meninas e meninos). Os meninos pegaram uma enorme vara de taquara, usada para tirar laranjas, treparam na laranjeira e espantaram a cobra. Iam caindo laranjas e as meninas abriam as saias e iam colocando as laranjas. Mas a cobra poderia cair também. As meninas gritavam e corriam. Entrei tanto no clima que nem me preocupei (no caso de um aluno cair ou se machucar). Partimos para um longo estudo no pátio mesmo. As crianças trouxeram os livros de ciências, observaram se a cobra era venenosa, comparando com os desenhos do livro. Formou-se um círculo de alunos interessados em aprender, todos envolvidos com os resultados das pesquisas in loco. Eu estava animadíssima com os resultados. Depois o lanche foi aquela matemática... quantas laranjas para cada aluno... e que lanche gostoso! Só alegria! Os passarinhos estavam felizes e nós também. A cobra verde coitada, serviu de cobaia para estudos!
E como foi fácil escrever sobre o que havia acontecido! A leitura então foi ótima. Foi ali, naquele momento, que me desprendi de apresentar conteúdos prontos e passei a observar mais os interesses dos alunos e comecei a trabalhar de forma diferente. Estudávamos no interior, tínhamos tantas riquezas naturais e ficávamos forçando os coitados a compreender conceitos, quando podíamos formar juntos estes conceitos. Partimos para passeios, visitas. Trabalhei muito e de forma diferente, e os resultados também foram diferentes. Passei a acreditar em meu potencial e no dos meus alunos. Soltei a imaginação. ...
Os passeios passaram a ser constantes, para conhecer nossa comunidade. Entrevistávamos as senhoras e senhores mais idosos para entendermos melhor como foi povoada nossa pequena comunidade de Nova Esperança. Pesquisamos os animais que havia, os rios, as matas e os cuidados com a natureza, e a transformação que fez o homem. A Matemática, estudávamos na nossa horta, as medidas dos canteiros, subtração, adição, divisão, multiplicação, etc . O mais gostoso mesmo eram as divisões, feitas com uma varinha no pátio, para ver quantos tomates cada aluno levaria para sua casa. E mais, amávamos aquela escola! Quando chegava dezembro, marcávamos: a cada 15 dias, do período das férias, todos os alunos iam até a escola junto comigo para a limpeza da escola e dos arredores e para colher verduras e conservar a horta limpa e bonita.
Como tínhamos poucos livros para leitura, então participávamos de um programa de rádio bem cedo, na Rádio Capinzal. Frei Davi fazia umas perguntas e quem respondesse, concorria a livros. Muitos dos meus alunos ganharam livros e ficavam felizes e eu também. Lembro que a Escola não tinha a biblia e no Natal a pergunta era: O que significa o Natal? Todos os alunos, de primeira a quarta série participaram. Cada aluno fez suas colocações e muitos outros ouvintes participaram também e quem ganhou foi a escola de Nova Esperança. O Frei leu a carta no rádio. Os pais vinham orgulhosos contar, agradecendo o meu apoio. Imagine a minha alegria. Eles escreviam , liam, e ouviam, e toda a comunidade ouvia.
Em sala de aula lembro de uma aluna que, depois que acabei de contar uma história, olhou séria pela janela e me perguntou: Prof., tem bruxa naquele mato?
Infelizmente esta escola fechou por falta de alunos, mas tive tanto apoio da Epagre e da Coordenação que fui transferida e promovida para trabalhar em uma escola Básica como secretária. Mesmo como secretária continuei com meus projetos extra–classe: horta, mini-estação metereológica, artesanato, bordado, etc,...Durante o tempo nessa escola é que resolvi fazer a graduação em Passo Fundo-RS. Só tenho boas recordações desta escola tão maravilhosa, que tinha uma direção comprometida com a comunidade.
Em 1997, iniciei, minhas atividades em Capinzal(vim para cá para cuidar de minha mãe, que estava muito doente). Nosso querido Uruguai também sofreu com a barragem de Itá, ficando a comunidade reduzida. Como eu era efetiva no Estado, transferi-me para Capinzal. Não me acostumei e tive depressão, mas hoje, graças a Deus, e a um montão de amigos que conquistei, sou feliz aqui e não saberia fazer outra coisa a não ser motivar leitores. Amo o que faço, adoro trabalhar, não posso ficar quieta.
Como dinamizadora da biblioteca, você faz feitiços literários o tempo todo para seduzir leitores. Como tem sido essa experiência de encantadora de leitores na biblioteca do Mater Dolorum?
Como dinamizadora da biblioteca procuro planejar, organizar o que temos para oferecer à clientela. Já percebi que devo explorar os cinco sentidos para motivar a leitura e precisa muito trabalho para conseguir algum resultado. No mês de novembro estou fazendo um trabalho explorando os livros de imagem. Mostro as ilustrações e depois exploro o texto sem palavras. É de arrepiar o pelo! As turmas mais bagunceiras ficam em silêncio vendo as ilustrações passarem e querem demonstrar que entenderem a história. Tenho uma salinha só com os apetrechos: caixas, cineminhas, cenários, flanelógrafo,etc. Os livros são explorados com diferentes recursos e matariais.
Cada vez que chega livro novo faço exposição, ampla divulgação, cartazes, exposição de tela, bordados,etc...
Trabalhar na biblioteca faz renascer em mim meu lado criativo e passei a colocar meus projetos em ação, aos poucos. Mas hoje posso dizer que o espaço da biblioteca é o melhor espaço para as crianças. É o ponto de encontro. Procuro inovar, dar vida para o espaço.
O projeto ‘’EU CONTO, TU CONTAS’ é um sucesso. Vou avaliando e as respostas me realizam. Até os alunos da 6ª série adoram ouvir histórias. Os alunos me dizem: prof. tem que continuar ano que vem. Com certeza tudo o que deu certo vamos continuar. No inverno fiz, a sopa de pedras do Pedro Malassartes, O chá das 17 horas, era uma tarde fria... Das delícias todos provaram e o feitiço mesmo é a imaginação ....estava quentinho e não tinha fogão....
A leitura do livro O rei que tinha orelhas de burro foi um sucesso. QUEM SONHA ACORDA, A FADA QUE SOLUÇAVA, vieram com CD. Coloquei num amplificador, fiz uns visuais bem coloridos. Preparei um estander para expor as ilustrações, um espaço privilegiado com cadeiras estofadas e um ambiente bem agradável...era só curtir....da primeira até a sétima série adoraram...e eu mais ainda. Sem contar que tivemos histórias com fantoches e convidados especiais.
O destaque, em 2010, foi o projeto EU CONTO, TU CONTAS. Todos os alunos que contaram histórias foram agraciados com um livro contendo uma dedicatória.
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