Leitura e interações com o livro O PACOTE QUE TAVA NO POTE ( Paulinas, 2007)
Língua Portuguesa - 2° e 3° ano - Professora Alessandra
Muita gratidão à Professora Ana Lucia Maichak de Gois Santos, da equipe de Lingua Portuguesa da Prefeitura Municipal de Curitiba, pela inclusão de meu livro no acervo de leituras das aulas gravadas para o Canal TV Escola Curitiba/PR.
A contadora de histórias Leila Carvalho, lindamente, declama poemas do livro Cantorias de Jardim (Paulinas, 2012) Uma voz poética e mágica que encanta ao semear perfumes e cores nas manhãs, nas tardes, nas noites, de quem se dispuser a ouvir. Muita gratidão Um dos poemas do ramalhete poético:
Musicalização do poema JANEIRO do livro Batata cozida, mingau de cará ) Prêmio Literatura para Todos ( MEC, 2005) PET PEDAGOGIA UFSC Grupo CANTAROLANDO
A Professora e escritora Paula Belmino lê o segundo capítulo do livro Casa de Consertos (Melhoramentos, 2012) Capítulo II
Meu pai foi morar pra lá
das estrelas. Eu tinha recém aprendido a ler e ele tava muito feliz. Ele falava
pra mim que ler era como tomar posse de um mundo novo.
_ Olímpia, leia pra mim
um livro. Quero ver se a tua vó te ensinou a ler direito.
_ E o que é ler direito,
pai?
_ É ler sem tropeçar nas
palavras.
_ Tá. Qual livro você quer
que eu leia?
_ Esse dali: Gato que pulava em sapato. O título é engraçado.
_ Quando termino de ler
ele me aplaude.
_ Agora eu escolho outro
pra ler pra você.
_ Claro, escolha.
_ Peguei Boi da cara preta e li o poema Guaraná com canudinho.
Ele riu um monte e
disse:
_ Quando eu era menino,
não tinha tanto livro infantil como tem hoje. Toda noite você lê um desses
livros pra mim, Olímpia?
_ Você que tem que ler
pra mim, pai!
_ Ah, é? Quem disse que
eu é que tenho que ler pra você?
_ Ora, porque sempre são
os grandes que lêem para os pequenos.
_ Mas, e se os grandes
querem conhecer os livros dos pequenos, não podem?
_ Podem. Eu leio pra
você e depois você lê pra mim , tá bem?
_ Então tá.
Tinha dias que ele tava
preguiçoso pra conversar, aí não queria conversa, nem leitura. Eu chacoalhava
ele e dizia: acorde, pai, que quero ler pra você a história de um bule azul
clarinho que é bem legal.
_ A... manhã, tá? Hoje
trabalhei como um condenado pra dar conta de um pedido de janelas que vai pra
Cuiabá. To moído, filha. Acho que vou dormir aqui mesmo no sofá. Você pode ler,
mas acho que não vou conseguir ouvir nem até a segunda página. Meu olho não
consegue ficar aberto... Leia pra sua
mãe, tá?
_ Hoje ela tem aulas até
as onze horas da noite. Vai chegar louca pra cair numa cama. Vou ler alto pra
mim mesma, então.
_ Tá, filha. Só hoje que
tô acabado.
Ele ficou acabado a
semana toda por causa das janelas que foram pra Cuiabá. Precisavam encomendar
tanta janela?
No sábado, ele tava
mais aliviado:
_ Hoje você pode ler a história da
chaleira azulzinha, tá?
_ Não é chaleira, pai! É bule azul clarinho.
_ Ah, eu tava quase dormindo naquele dia, não ouvi direito. Mas
hoje sou todo ouvidos.
Quando terminei de ler a história, ele disse:
_ Hum! Eu já tinha ouvido falar
de encantador de abelhas, encantador de cobras, mas de encantador de
bules nunca tinha ouvido falar, não. Gostei das quadrinhas que a moça vai
dizendo pra abrir o caminho pra casa do encantador. Como é mesmo aquela que
embola fita e fato, fato e fita?
_ É assim: - preste atenção, que não vou repetir:
Não sei se é fato ou se é fita
Não sei se é fita ou se é fato
Só sei que ele me fita
Me fita mesmo de fato.
_ Outro dia você lê de novo a história do bule azulzinho pra
mim, Olímpia?
_ Só se você não estiver acabado de tanto fazer janelas, ok?
No dia em que ele foi embora pra sempre a gente tomou café juntos,
pela manhã:
_ Olímpia, peça a tua mãe pra te levar na cabeleireira pra
cortar esse cabelo que tá caindo no teu olho.
_ Ih! Ela tá cheia de provas pra corrigir.
_ Então eu te levo amanhã à tarde. Hoje notei que você tá
precisando de um armário no teu quarto.
Tá cheio de coisas suas pelo chão e debaixo da cama.
_ É por falta de ter onde guardar.
_ Vou fazer um armário de duas portas, no capricho, pra você
guardar suas bugigangas.
_ Você coloca puxadores redondos nas portas?
_ Coloco.
_ E faz com pés altos?
_ Faço.
_ Faz as portas cheias de luas?
_ Com luas vai ser mais demorado. Estamos com muitas encomendas.
Liso é mais rápido.
_ Nem que demore, quero as portas com luas. E qual vai ser a
cor?
_ Clarinho. Vou fazer de MDF.
_ O que é isso?
_ São chapas de fibra de
pinus, de fino acabamento e grande resistência.
_ Então tá. Hoje na volta da marcenaria, você me traz
maria-mole?
_ Quantas?
_ Duas. De coco queimado, tá?
_ Tá.
Ele me deu um monte de beijos antes de ir.
Por que não dei mais beijos e abraços nele? Nunca mais eu o abraçaria vivo. A morte veio no meio da tarde e levou-o
embora. Eu queria ter as mãos do rei Midas, não pra transformar tudo em ouro,
mas pra ter acordado meu pai do sono sem fim.
Cantorias de Jardim enlaça
poeticamente um ramalhete de flores através de poemas inspirados na poesia oral
do folclore. O narrador poético conversa com as flores (rosa, cravo, lírio,
amor-perfeito, margarida, jasmim, miosótis e demais flores do feixe poético), conta seus segredos e magias e, por vezes, chama o leitor para participar da
cena poética, ora ofertando-lhe a flor homenageada, ora propondo um jogo de
adivinhação, ora advertindo-o para perceber a flor, tal como faziam os cantores
peregrinos e singelos de outrora.
Resenha de Peter O'Sagae sobre o livro Tá pronto, seu lobo? e outros poemas
O tempo passa depressa, diz um verso de Eloí Elisabet Bocheco – no poema “Uni... Duni... Téia”, publicado em seu primeiro livro de poesia para crianças, com o mesmo título, e que recebi naqueles anos em que me via escondido online com O Caracol do Ouvido. Clique vai, clique vem,na palma da nossa mão, muitas alegrias se desenrolaram. Poucos sabem quanto Eloí foi madrinha das aulas de literatura infantil em minhas andanças no oeste de Santa Catarina, entre 1999 e 2004; poucos sabem da intimidade do nosso primeiro encontro, atravessando doze, quinze horas diretas de conversa admirada à porta da cozinha de sua casa enquanto André cozinhava, Luiz mexia um canto e outro no jardim, na horta, e os filhos iam e voltavam e a gente lá falando livros pelos cotovelos, se encantava.
"O tempo passa depressa...
Só não passa a roda
de bem-querer
e amizade,
brincadeira de
esconde-esconde
com a saudade."
E amizade com Eloí é feita de promessas de continuar um dia, após distância e algum silêncio. Um dia, então, a gente descobre o poema do uni, duni musicado por Priscila Schaucoski e Bruno Andrade, descobre Téia na página de outro livro:TÁ PRONTO, SEU LOBO?com ilustrações de outra amigaluna, a Suryara Bernardi (Formato, 2014). Na dedicatória em letras miúdas, Eloí escreve que o livro é “um feixe poético, formado por novos e velhos ramos – verdes, espero”.
Vou imediatamente inventariando. Das páginas de UNI... DUNI... TÉIA (Papa Livro, 1998), saíram também a antiga flauta floreada, agora “Flauta florida”, e o teimoso “Cavalinho da alvorada”. Do livro Ô DE CASA (Grifos, 2000), o poema “Tá pronto, seu lobo?” que empresta o título à nova antologia e a parlenda “Martina” com suas sementes beijadas de sol. “Posso entrar?” e “Segredos” foram originalmente publicados online pelo Jornal de Poesia, de Soares Feitosa. Ao todo, conto sete poemas que alinhavam a escrita constante de Eloí Elisabet Bocheco, cuja obra poética inspirada nas tradições orais incluem A DE AMOR, A DE ABC (1999), o premiado BATATA COZIDA, MINGAU DE CARÁ no I Concurso Literatura para Todos, do Ministério da Educação (2005), POMAR DE BRINQUEDOS (2009) e CANTORIAS DE JARDIM (2012), recentemente comentado, até chegarmos ao ano de 2014 – e já parece que temos mais dois, três livros de Eloí com poesia para crianças.
Considerando cada livro como um projeto que ladrilha o caminho da autora, o brilho de TÁ PRONTO, SEU LOBO? e outros poemas, perpassa inicialmente os brinquedos encenados através da palavra falada – como as parlendas com perguntas e respostas, os contratos de escolha que se apresentam em meio às cantigas de roda. Deste modo, as perguntas tornam-se chaves grandes, chaves mestras e fundamentais para estabelecer um contato afetivo entre as crianças, nas situações de texto-vida, entre a voz lírica e seus leitores, nas situações de leitura.
O poema que abre a antologia nos indaga, por três vezes – Posso entrar no seu reino, meu rei? E nossa memória intertextual, do leitor mais novo ao leitor mais velho, pode propor inúmeras respostas, cadenciadas e próximas das possibilidades que Eloí Elisabet oferece... O jogo do faz de conta vem nos levar para o lugar distante dos contos de fadas, para o reino das adivinhas e das tarefas cheias de ardis, do caminho que se inventa com três obstáculos etc. A primeira resposta tirada pelo poema é –
"Só se ocupar todas
as pausas, reinando
sobre as palavras."
Leitura e reinações aí se equivalem; gramaticalidade e brinquedo, pausas são reticências de coisas que nunca terminam ou parada para o outro continuar? O lobo, cantado antes de começar a brincadeira de pega-pega, no jogo do livro, é um lobo azul de gravata e chapéu de Fernando Pessoa, vaidoso, alguém quase a perder a hora para a festa no céu que começou faz séculos...
A criação poética de Eloí Elisabet Bocheco vem das tradições orais, das raízes da fala até o ouvido, mas vai também às páginas da literatura infantil e universal. Nenhum escritor, nenhum poeta pode alegar, perante seus leitores, ignorância da existência dos livros. A isso se diz consciência de metalinguagem, porque os textos novos sabem ler os textos antigos. E então, qual a melhor marca da literatura para crianças? Jogar com os segredos, com a transparência da leitura!
Dos poemas novos – ao todo, catorze – “O que é que eu faço?” – que Suryara ilustrou com olhos de sonho, cinza, jeans rosa pespontado, amarelo e cabelo no gramado – é uma canção límpida e preguiçosa ao sol da tarde. Assim termina:
"Um arco
de neblina
para o cabelo
da menina."
Depois das brincadeiras, poesia é devaneio. Eis a segunda marca desta antologia e encontraremos Eloí envolvida com descrições da natureza em quadros coloridos e canoros, festejando peixes, lagartos, fios prateados, renda, efeitos, infância, meses do ano, como se tudo pertencesse, de forma ininterrupta, ao mesmo céu. A riqueza de seus poemas está bem menos nas coisas do pensamento e reside, sem categorias, no toque sensível dos olhos e das mãos. Não leio, nem ouço símbolos. Pego extravagâncias, como um lago que se muda de lugar, pirilampo que esconde queijo no mato, uma sombrinha feita de flores, gato que engole letra sem mastigar – tudo isso e outras coisas mais – como coisas mais reais, objetos do conhecimento que a imaginação verbal pode manipular. E isso, esse processo, transmite uma sensação de alegria e leveza. Por isso, aqui temos poesia para crianças.
Eloí Elisabet Bocheco toma algo de José Paulo Paes, Elias José e Sérgio Capparelli, hoje parece mais liberta de Cecília Meireles ou Vinícius de Moraes, como li nos seus primeiros livros. Assim, com outra chave, entendo, quando minha amiga escreve avisando o feixe que abraça novos e velhos ramos – verdes, espero, ela disse – o significado que sua obra possui. As sementes começaram a brotar faz tempo e cresceram. Cresceram, verdejaram, deram perfume, grãos e frutos: velhos versos que ainda podem ser colhidos com frescor por alguém que não conheça este ou aquele poema, versos novos ainda verdes semeando esperança.
“Se a poesia bater à porta,
abra como a um amigo.
Poesia é luz,
alimento e abrigo.”
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