terça-feira, 30 de junho de 2015

Leia comigo!

                           
                     
Professora Joelma Magrineli Susin e a filha Eduarda - leitura compartilhada do livro Beatriz em trânsito.


Capítulo: Adeus, Sam!  ( Páginas 53-55)

Samuel não chegou  a ler o que escrevi em resposta a este seu último e-mail.  De vez em quando releio tudo que escrevemos um ao outro, e posso ouvir ele dizer, de viva voz, o que tá escrito. Meu ouvido fica escutando, escutando a voz boa do Sam me contando ou explicando coisas de livros e de gentes, e dos progressos dele com as pernas.
  Sento na varanda pra esperar a boca da noite soltar os pirilampos pra passearem. Nunca vieram tantos pirilampos como agora, como coisa que querem me ajudar a tomar conta da saudade de Sam.
  Às vezes me sento na varanda e imagino o Sam chegando, ele sozinho, sem a cadeira, em cima dos dois pés. A gente se abraça e ri um monte.  E ele diz: eu não disse que eu já vinha? E aí vai vindo todo mundo ver que algazarra é aquela na varanda e fazem a maior festa pro Samuel. Fazem tanta pergunta que eu tenho que dizer, calma, gente, o Sam vai ficar as férias todas aqui, perguntem devagar, por favor.
  Depois correm todos buscar algum agrado pro Samuel; meu tio Pedro traz um prato de uvas pretas, o Eduardo traz carambolas, a minha vó oferece bolo, a Leonor corre botar a rede pra ele descansar da viagem longa. A Rosana chega da cidade, pula da caminhonete e abraça o Sam com altos risos de alegria de chegada; ele até se atrapalha com tanta atenção. Depois a gente bota a bagagem dele num canto da sala, sai correndo pra lagoa verde e só volta quando escurece. E todo dia é a mesma coisa: só voltamos pra casa pra fazer as refeições.
  Ou se não, ele aparece nos meus sonhos; vem andando e rindo, e me abraça e pergunta de todo mundo. No sonho, ele tá vivo, e eu nem lembro que ele foi atropelado, em cima da faixa de pedestres, por um motorista bêbado; nem que ele e as muletas voaram para longe.
  _ Você não respondeu meu último e-mail – ele me diz.
  _  Respondi, sim, mas o aparelho tava ruim, não tava enviando as mensagens, e a resposta tá guardada na caixa de saída.
  _ Você  vai deixar essa mensagem na caixa de saída pra sempre, Bia? Voc~e precisa dar um jeito de mandar ela pra mim.
  Aí conto que li O Jardim Secreto que ele citou no e-mail e falo do tanto que esse livro cobre a gente de verde, de pétala de rosa, de canto de passarinho, de música de abelha, de cheiro de flor silvestre...
  _ Ah, que bom que você leu esse livro, Beatriz! Eu tô indo embora justamente pra esse jardim secreto.
  _ Como? Se o jardim secreto é do Colin, do Bem, da Mary e do Dickon?
  _ Eu li o livro, então, o jardim secreto é meu também.
  _ Você não volta nunca mais?
  _ Nunca mais!
  _ Ah, não, não pode ser pra  nunca mais. Tinha que ser só de passagem... “ a passagem dá passagem, mas é só de passagem”, você não lembra?
  _ É quer agora vou viver pra sempre, Bia, então escolhi morar num jardim secreto, entende? Me diga: existe melhor lugar pra se viver pra sempre do que um jardim secreto?
  _ É, acho que não existe mesmo. No dia em que eu for viver pra sempre eu também vou escolher um jardim secreto pra morar, e aí a gente vai poder se encontrar de novo, não é?
  _ Sim, vamos nos encontrar no jardim secreto um dia... Até lá, procure ser feliz, Bia, e não esqueça tudo que conversamos. Sabe aquela tua ideia de ser arquiteta pra arquitetar umas coisas legais para as pessoas com deficiência poderem ir e vir no mundo? Se você virar mesmo arquiteta, não esqueça disso, tá?
  _ Não vou esquecer. Nem que eu não vire arquiteta, eu nunca vou esquecer, Sam. Você promete vir, de vez em quando, contar como é viver num jardim eterno?
  _ Prometo que  venho. Você vai ouvir a flauta... aí vai saber que sou eu que tô vindo...
  _ A flauta?
  _ É. A flauta do Dickon, de encantar animais. Vou aprender a encantar animais, principalmente os que mais me encantam, que nem as cutias e os esquilos.
  O Sam vai indo, e dando tchau com a cara de “que pena que a gente tem que se separar” e vai sumindo, sumindo no final do meu sonho.


BOCHECO, Eloí Elisabete. Beatriz em trânsito. Belo Horizonte: Dimensão, 2006, P. 53-55

terça-feira, 9 de junho de 2015

Jornadas Literárias de Passo Fundo

Mensagem das professoras Marisa Lajolo & Regina Zilberman

Há 34 anos, escritores, leitores, seus formadores e seus pares aprenderam em Passo Fundo formas extremamente gratificantes de convívio. Sob a batuta competente da profa. Tânia Rösing.
Por cinco dias, desde 1981, nos primeiros anos em salas da universidade e depois também sob a imensa lona que abrigava os eventos plenários, gente de todas as idades falava de livros. Histórias, poemas, romances, quadrinhos, tudo tinha sua vez. A vida literária brasileira foi se ouvindo cada vez mais forte, pela voz da profa. Tânia Rösing, idealizadora e até dias atrás coordenadora do evento que chegaria neste ano à sua décima-quinta edição.

O evento começou modesto.
Sua primeira edição chamou-se Jornada de Literatura Sul-Rio-Grandense. Em 1983, em função da envergadura que foi ganhando, passou a chamar-se Jornada Nacional de Literatura Brasileira. Poucos anos depois, simplificou a denominação para Jornada Nacional de Literatura, pois se tratava de valorizar a literatura e escritores independentemente de sua origem geográfica ou língua empregada. E na esteira da visibilidade que o trabalho da profa. Tânia deu aos livros e à leitura, Passo Fundo, em 1997, passou a constituir-se a primeira cidade brasileira a dar asilo a um escritor perseguido, em conformidade com os princípios do Parlamento Internacional dos Escritores.
Simultaneamente ao amadurecimento do evento, que em suas primeiras edições privilegiava livros para crianças e jovens, a literatura infanto-juvenil foi ganhando reconhecimento acadêmico. Chegou à pós-graduação. E fora da academia, tornou-se um dos mais significativos segmentos do mercado livreiro, bem como um dos elementos fundamentais da formação de leitores. Abandonando o recorte pedagógico, retomando a tradição lúdica e literária da obra lobatiana, o gênero trouxe para o Brasil vários e importantes prêmios internacionais. Cujos ganhadores – a convite da profa. Tânia Rösing – por várias vezes participaram da Jornada de Passo Fundo para delícia de seus leitores, entre os quais se contam pesquisadores, professores, educadores.

Não por outra razão Passo Fundo ostenta hoje a média de leitura de 6,5 livros por habitante/ano, a mais alta do país, reconhecimento que se traduziu na lei federal de 2006, que confere àquela cidade o título de Capital Nacional da Literatura. Os inúmeros prêmios concedidos à coordenadora – como a Comenda Ordem do Mérito Cultural, da Presidência da República, em 2002; o Prêmio VIVALEITURA, do PNLL - MinC e MEC, em 2008; o Prêmio Qualidade RS, Personalidade na área da Cultura, em 2012; o Prêmio Líderes & Vencedores, em 2013;  e – no ano passado, 2014 – os troféus Guri, da RBS,  Amigo do Livro, da Câmara Rio-Grandense do Livro,  ao lado de troféu com o mesmo nome, da Câmara Brasileira do Livro durante a cerimônia de entrega do Prêmio Jabuti. Tais prêmios,  entre os mais recentes recebidos profa. Tânia Rösing, confirmam amplamente a excelência de seu trabalho e a liderança que exerce no meio em que atua.

Nestes anos todos, escritores dos mais diferentes perfis foram recebidos com carinho e respeito em Passo Fundo, tendo à frente a figura infatigável de Tânia Rösing. São esses respeito e carinho, associados à gratidão, que desejamos retribuir, em nome de todos os leitores, educadores e pesquisadores que foram beneficiados com a ação incomparável da coordenadora de todas as Jornadas de Literatura realizadas até o presente.

Regina Zilberman & Marisa Lajolo

terça-feira, 10 de março de 2015

Todos os passarinhos...

O poema CANTORIAS, do livro Tá pronto seu lobo? e outros poemas, na contracapa da Revista Ciência Hoje das Crianças - edição de fevereiro









sábado, 21 de fevereiro de 2015

Poesia: alimento e abrigo

Tá pronto, seu lobo? e outros poemas no Caderno de Cultura
do Jornal Contraponto - PB
Resenha da professora Neide Medeiros Santos







quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

Dentes de leite e outros mimos...






A leitura do poema  Dente de Leite, do livro Tá pronto, seu lobo?  inspirou este texto lindo da professora Rosane Maria Kreuch, de Florianópolis. Puxei do  blog da professora Rosane: Não corra, margarida,  não corra!

MEU PRIMEIRO
DENTE DE LEITE
CAIU DE DIA.
JUNTEI O DENTE
E GUARDEI NA BACIA.

O SEGUNDO DENTE
CAIU NO QUINTAL.
NASCEU UMA ROSEIRA
NO MESMO LUGAR.

O TERCEIRO DENTE
CAIU NO RIO.
FOGE, PEIXE,
QUE O DENTE TE VIU!

O QUARTO DENTE
ARRANQUEI COM LINHA
E JOGUEI NO TELHADO
PARA A ANDORINHA.

MEU QUINTO DENTE
CAIU EM DEZEMBRO.
DOS OUTROS DENTES,
JÁ NÃO ME LEMBRO.

O poema acima, que ilustra as páginas vinte e oito e vinte e nove do livro "Tá pronto, seu lobo?, da escritora catarinense Eloí Bocheco, é um exemplo de que a arte não pode ter uma função pré-estabelecida mas deve provocar os sentimentos. Para as crianças, considero lindo quando a arte provoca empatia, como no caso da poética troca dos dentes. 

Uma das características da arte é não ser literal. Outra é não ser possessiva nem endereçada. Ou seja, ao autor não é garantido que sua obra tenha uma única interpretação ou um único significado. Ao colocar uma obra para o mundo, o criador sabe que não terá mais controle sobre ela. Foi assim, lendo o poema  "Dente de Leite" e pensando no que eu gostaria de escrever a respeito dele, que lembrei de algo muito estranho:  há mais ou menos dezenove anos guardo os dentinhos de leite da minha filha (difícil acreditar, não é mesmo? Tem foto aí embaixo pra comprovar). Os dentinhos ficaram guardados numa caixinha, como se fossem um tesouro!

A leitura do poema e o encontro com estas lembranças me fizeram perceber a paradoxal relação entre o terno e o absurdo nisso tudo. Recordei, inclusive, que na época da troca de dentes da minha filha eu me disfarçava de "fada do dente" e deixava cartinhas de agradecimento com um dinheirinho sempre que ela fazia a gentileza de deixar o dentinho embaixo do travesseiro.  A minha filha nunca deu importância para estas coisas que eu inventava... e até hoje considera tudo uma grande bobagem. Sei lá, penso que ela tem outro jeito de lidar com estes assuntos. Eu, somente agora vejo aquele meu comportamento com estranheza.

Ainda com o poema em mãos resolvi que é chegada a hora de dar um destino para os dentes de leite. Algumas leituras que fiz (aqui e aqui) me ajudaram a perceber que a fada do dente foi repaginando-se ao longo dos anos e que,  atualmente, o legal é que as crianças doem seus dentinhos para alguma faculdade de odontologia onde eles serão usados para a realização de pesquisas científicas e como fontes de células-tronco.

Voltando a minha caixinha do tesouro, digo, dos dentes de leite, descobri que há apenas dezessete dos vinte que deveriam estar guardados lá. Felizmente, a doação pode ser feita com qualquer quantidade de dentes e em qualquer estado de conservação. Neste endereço há mais informações sobre o envio das preciosidades e o destino certo da minha caixinha. 

Concluindo, desapego é o que minha filha parece saber vivenciar desde pequena e eu ainda estou engatinhando nesta arte. 


                        

Link do blog  Não corra, margarida, não corra!



sexta-feira, 21 de novembro de 2014

De flor em flor...





Linda e sensível  resenha sobre Cantorias de Jardim,  assinada pela pesquisadora Mercedes Fernandes, no blog LIVROS PARA TODAS AS IDADES:



(...) "A simplicidade que me tocou é diretamente proporcional à complexidade de sua composição poética, seja na profundidade dos temas como na afetividade mágica da narrativa folclórica que nos remete a intimidade de cada flor descrita.
 Adorei cada poesia: em títulos simples dos nomes em flor tais como “Lírio”, “Camomila”, “Hortência”,” Camélia”, “Violeta” e também das frases que provocam sentimentos e curiosidades tais como: “O que tem a rosa?”,  “Onde está a Margarida?”
                                                                                      Mercedes Fernandes






terça-feira, 18 de novembro de 2014

Tá pronto, seu lobo?



   Os primeiros acordes de poesia que me arrebataram saíram da boca dos contadores e declamadores de minha infância. Além dos menestréis locais, entre os quais incluo meus pais,  havia os peregrinos que vinham de longe e traziam as algibeiras repletas de cantorias. Fui uma grande “ouvidora poética” desses cantares,  oriundos do repertório oral. A sonoridade, os ritmos, a singeleza, o humor, o ludismo  vivenciados nesse contato com o cancioneiro oral me seguiram pela  vida afora.   Quando comecei a escrever para crianças,  essa herança poética,  decantada pelo tempo e pela   experiência, veio me dar a mão para compor meu próprio ramalhete de versos. Escrever poesia para os pequenos é um jogo muito prazeroso e divertido, embora não seja nada  fácil capturar os melhores acordes para que valha a pena a escritura.
   Alguns poemas deste livro já têm uma história afetiva com leitores reais e virtuais,  como é o caso do poema-título Tá Pronto seu Lobo? -  inspirado em uma brincadeira de roda. Reuni, neste feixe poético, poemas escritos em vários momentos da vida, inclusive, o primeiro da carreira, Flauta Florida.  Plantas, flores, cores, letras, bichos, brincadeiras, nonsense e outras provocações poéticas da obra devem ao manancial do folclore  a inspiração e os procedimentos  escolhidos para dar forma às brincadeiras com a linguagem.


quinta-feira, 11 de setembro de 2014

Carinho poético



Um retorno lindo como este da querida Vivian Zelda - leitora e escritora mega sensível - é um grande alento  para continuar indo às fontes das palavras buscar água para a partilha literária:




Palavras lindas e   encorajadoras   da escritora e professora Sueli de Souza Cagneti - um afago lírico que ajuda a escrever e viver:



 




quarta-feira, 7 de maio de 2014

Memória literária: herança preciosa


 
    Ottaviano de Fiore  diz que um dos fatores críticos  para uma pessoa se tornar leitora é ter passado a juventude numa escola que se preocupa com a criação do gosto por leituras.  Diz, ainda, o mesmo pesquisador, que a escola é o mais importante instrumento que a nação dispõe para implantar o hábito da leitura em crianças e jovens.
   Muitas crianças e jovens,  por sorte, estão passando a sua  juventude em escolas leitoras. A Escola de Educação Básica Josefina Caldeira de Andrade, no município de Videira/SC, é uma dessas escolas. Toda a comunidade escolar envolve-se com a formação leitora de suas crianças. A leitura é prática constante e todos os professores, de todas as áreas, estão engajados no Projeto de Leitura.   
   Quem está passando a juventude nessa escola certamente nunca a esquecerá e levará consigo uma herança preciosa que valerá para toda vida. É uma felicidade para uma criança estudar em uma escola que cuida de sua  memória de leituras, de sua história de leituras.
   Tive a alegria de participar de um dos momentos especiais do Projeto de Leitura da Escola de Educação Básica Josefina Caldeira de Andrade. Foi um dia  lindo, mágico, repleto de emoções, inesquecível.  Ver os livros que escrevi com tanta paixão serem  transpostos para outras linguagens, com tanta sinceridade e beleza é algo para não se esquecer jamais.
    Fiquei honrada e feliz por fazer parte de um dos momentos de um trabalho tão bonito que cuida da criação da memória de leituras das crianças e jovens, em especial, da memória literária, que os acompanhará por toda a vida.

Mais informações sobre o Projeto de Leitura da escola  aqui  e  
aqui

Lindas contadoras de histórias contando o livro Contra feitiço, feitiço e meio (Paulinas, 2011)





Releituras, recriações,  transposições e outros diálogos com as obras:











Infância, livros, afetos...










sábado, 11 de janeiro de 2014

Afeto, aventura e amizade





Rua Âmbar no Diário Catarinense de 11/01/2014
Breve ensaio do professor Fabiano Tadeu Grazioli ( URI) 

   
                    


Afeto, aventura e amizade na Literatura Infantojuvenil catarinense

Fabiano Tadeu Grazioli[1]

Rua Âmbar (Formato, 2013) é a publicação infantojuvenil mais recente da escritora catarinense Eloí Bocheco. Na trilha dos últimos Casa de Consertos (Melhoramentos, 2012), Tua mão na minha (Habilis, 2012) e Cantorias de Jardim (Paulinas, 2012), o livro é bem cuidado, com ilustrações primorosas de Márcia Cardeal e um projeto gráfico adequado.

A história é dividida em treze capítulos, numerados e não titulados e se desenvolve em Mariscal, praia catarinense. Eloí recolhe elementos do dia-a-dia do lugar (ruas da referida praia,  detalhes da vida dos pescadores, dos moradores, dos veranistas) e os utiliza como peças importantes no esquema narrativo que monta.
Miro, ou melhor, Valdomiro Silveira, o protagonista da história é um menino que vive a infância com intensidade.  Quando se apresenta aos amigos veranistas diz que “o pai é Leopoldo e trabalha na pesca, a mãe é Inês e vende peixes, que mora na rua Ametista, estuda no terceiro ano, adora a rua Âmbar e faz miniaturas de latinhas” (p. 34).
Mas o que significa viver a infância com intensidade, no caso de um menino filho de família simples, e quase sem amigos? Significa ter tempo e espaço para brincar. Os pais de Miro têm noção da importância que o brincar criativo tem na vida do menino. Isso fica evidente em vários episódios da história, mas, em especial, no capítulo quatro, quando Miro abandona o trabalho de limpar peixes e sai, a mando do pai para brincar: “Em geral o pai lhe dá uma tainha e uma anchova para limpar, às vezes, dois ou três peixes pequenos. Em seguida diz que já pode ir brincar” (p.9); e quando a mãe compara o brincar ao trabalho das abelhas: “- Olhe ali as abelhas no canteiro de cravinas, colhendo néctar. Criança brincando é abelha colhendo néctar. Brincadeira é néctar armazenado na alma”(p.9). Os pais de Miro, ao compreenderem a importância do brincar na vida do filho oferecem ao menino o ambiente facilitador para a brincadeira. Proporcionar tal ambiente é, para Marina Marcondes Machado (2004), função dos adultos em relação às crianças.

O espaço que o menino possui para brincar é a própria Mariscal, com suas ruas, casas, árvores, areia e mar. O personagem transita livremente pelos vários lugares da praia. Leopoldo e Inês compreendem que “uma criança livre, feliz, brinca quando come, sonha, quando faz seus pequenos discursos poéticos” (MACHADO, 2004, p. 19).
Quem acompanha a narrativa de Eloí percebe que brincar é produzir, fabricar, criar, e que essas experiências tornam lúdico o olhar de Miro para o mundo. É a partir deste olhar que o menino filtra a vida que lhe cerca.

Já no início da história, o leitor é informado que Miro possui uma habilidade interessante: fabrica miniaturas de objetos com latinhas de refrigerante. A “fábrica”, como são chamadas as duas caixas de madeira onde guarda seus materiais fica “localizada em um endereço de acesso restrito. E mais, Miro dorme em cima da fábrica. Ou melhor dizendo, ele dorme e acorda em cima dela, por que ela fica debaixo da cama dele” (p. 5). A imaginação de Miro somada à força do maravilhoso na história, resulta em cenas nas quais, curiosamente, os objetos guardados embaixo da cama conversam.

Catar e saborear pitangas pretas é uma das atividades preferidas do menino. Mas sabe que deve se apropriar somente das que ficam do lado de fora dos muros das casas. Ensinamento do pai Leopoldo, por quem Miro tem carinho e afeto especial.  Miro admira o pai pescador, ao mesmo tempo que lamenta a vida sofrida que ele leva:

“-Por que não larga a vida no mar e vai fazer outra coisa, pai?
- Sou um homem do mar. Devo ter sido peixe em outra vida.
(...)
- Você nunca passeia, nunca se diverte, pai.
- Minha diversão é por meu barco no mar.
- Mas por causa do sol e da água salgada seu rosto está todo franzido.
- Filhos do mar, feito eu, ficam assim mesmo, Miro (p. 12).

O protagonista não deseja ser pescador como o pai. Mas possui “alma de peixe”, como ele, e por isso projeta para si uma profissão parecida:

 “- Quero trabalhar no mar, mas não como pescador. Quero ser um pesquisador, um estudioso de tudo o que existe no fundo do mar.
- Gostei dessa ideia.
- Aí eu também serei um homem do mar feito você” (p. 12).
              
A estima pelas profissões do mar é a manifestação do desejo de Miro em ser como o pai. Não quer ser pescador, mas alguém instruído, “um homem do mar com diploma”, como brinca Leopoldo. A paixão pelo mar uniria assim, pai e filho.

É na Rua Âmbar que grande parte da história acontece. Os melhores pés de frutas estão na Âmbar. A casa do poço, a mais misteriosa da região, também. Trata-se de uma casa abandonada, que Miro tentou conhecer três vezes e só na quarta vez teve coragem suficiente para entrar. Em um quarto encontrou uma formiga ruiva falante, que por sinal, já conhecia sua fábrica. No outro quarto encontrou um armário de onde saiu uma cobra azul-turquesa. Conversando com a cobra ficou sabendo que ela tinha nascido gaivota e se transformado em galho de árvore, pedra, chapéu, carta de baralho... No terceiro quarto encontrou uma tainha com lindas escamas reluzentes. Em seu cesto a tainha guardava miniaturas de lata que haviam sumido do quarto de Miro. “Disseram que foram dar uma volta na Rua Âmbar e não acharam mais o caminho de volta” (p. 23), explicou a tainha. Saindo da casa, Miro encontra uma bruxa da Costa Esmeralda que veio buscar água do poço para seus trabalhos de magia.

A narrativa de Eloí lembra o mestre Lobato, já que a autora anula as fronteiras entre a vida real, conhecida de perto pelo leitor, e o espaço do maravilhoso, que é próprio da Literatura para crianças.  Sobre essa ocorrência em Lobato, Nelly Novas Coelho afirma: “Suas histórias não decorrem em nenhum reino maravilhoso, fora do tempo e espaço históricos (...). Pelo contrário, todas as situações que estruturam as efabulações de cada livro radicam-se no mundo cotidiano, familiar ao dia-a-dia da meninada” (2006, p. 642). Neste ambiente conhecido e comum, “surge, de repente, um elemento estranho, pertencente ao reino do imaginário, do sonho ou da fantasia. Mas devido à naturalidade com que esse elemento estranho passa a integrar o natural, ambos se igualam ou se identificam como possibilidade de existência (2006, p. 642).
Em Rua Âmbar, Eloí se utiliza do mesmo recurso.  As miniaturas de latinha e demais objetos que conversam entre si; a formiga-ruiva e a tainha de lindas escamas, ambas falantes; a cobra azul turquesa que se transforma no que quiser; a bruxa da Costa Esmeralda, entre outros elementos, são próprios da fantasia, surgem naturalmente na história e se somam aos eventos cotidianos vivenciados por Miro, promovendo a fusão entre mundo real e imaginário.

É na Rua Ambar que Miro conhece os únicos amigos com quem ele vai se relacionar na história: Matita, Quim e Isa. São veranistas, moram em Jundiaí/SP e o pai deles comprou a casa 109. Os quatro vivem aventuras ciceroneados por Miro, que lhes apresenta a rua e  a casa do poço.

A notícia da morte de seu Leopoldo pegou todos de surpresa. “O barco bateu nas pedras e afundou. Ninguém escapou” (p. 46). Miro sofre muito com a partida do pai. E agora, como iria ser? E quando os peixes da peixaria acabassem, o que a mãe faria? ‘’Se ela dizia que ia dar um jeito, então é porque ia mesmo. Ela era uma mulher de confiança” (p. 48).

No último dia do veraneio de seus amigos, Miro é convidado por eles para plantar um pé de ingá no pátio da casa 109. A árvore era uma homenagem a Seu Leopoldo. Miro imagina que o pai ia gostar da homenagem. Ele se deu conta de que, curtido de sol e da água salgada do mar, o pai fora se tornando parecido com um tronco de árvore. No dia seguinte, após o café, o protagonista vai até a casa dos amigos para se despedir. Presenteou-os com um barquinho, um jarro de lata e uma estrela do mar. Voltariam no próximo janeiro, e isso deixava Miro feliz.

Na obra em questão, conhecemos uma Eloí diferente daquela que diversas vezes já encontramos, cuja matéria prima para a criação literária são as memórias da infância. Em Rua Âmbar, Eloí se mostra capaz de mergulhar na infância dos meninos da atualidade e de utilizar elementos que não lhe cercaram na sua época de criança, como a praia, o mundo dos pescadores e a vida dos veranistas. Mas não deixa de emprestar a Miro o olho da menina curiosa e atenta que imagino que ela foi e que ainda é. Aos olhos de Miro, nada passa despercebido na Rua Âmbar, qualquer novidade é notada, por mais miúda que seja.

O texto da obra é fluente e com linguagem acessível a partir do Leitor em Processo. Leitura envolvente. Desejo que muitos leitores encontrem com Miro e passeiem pela Rua Âmbar. Nas escolas, nas bibliotecas, nas rodas de leitura, nas sessões de leitura literária nas escolas, enfim, onde estiverem leitores curiosos e sensíveis, ali Rua Âmbar pode figurar com majestade.  

Referências
MACHADO, Marina Marcondes. A poética do brincar. São Paulo: Loyola, 2004.
COELHO, Nelly Novaes. Dicionário crítico da literatura infantil/juvenil brasileira. São Paulo: Editora Nacional, 2006.


[1] Mestre em Estudos Literários. Professor de Literatura Infantojuvenil da Faculdade Anglicana de Erechim/RS.