quarta-feira, 9 de novembro de 2016

Anotações sobre a prática da leitura


Leitura: instrumento de poder
Eloí E. Bocheco/2016     

A prática da leitura promove o aprofundamento do olhar sobre o mundo; auxilia no entendimento e decifração da realidade. Cria instrumentos mentais para ler o mundo e a si mesmo com mais lucidez e criticidade.
   Um bom leitor tem mais recursos para ler e avaliar o lado direito e avesso dos discursos sociais,  que circulam através da mídia impressa, televisiva ou pela internet. Ler é um requisito cada vez mais essencial no mundo  contemporâneo. Temos hoje excesso de informações. Muito mais informações do que podemos assimilar e processar. O leitor autônomo tem mais condições para avaliar e selecionar, dentre uma avalanche de informações, o que, de fato, interessa para o seu aperfeiçoamento humano e profissional. Ler ajuda a tomar posse do mundo, tomar posse do conhecimento, filtrar informações, transformar ideias, desejos, reivindicações em discurso, em fala mais elaborada e pertinente.  
  A leitura qualifica toda a relação com o real, uma vez que amplia a visão de mundo do sujeito leitor e permite a elaboração de outras e melhores sínteses sobre o seu universo.
Neste sentido, a competência leitora qualifica também a leitura de todas as outras linguagens - cinema, música, teatro, pintura, publicidade, política.  É oportuno lembrar o que disse Marisa Lajolo: "leitor maduro é aquele para quem cada nova leitura desloca e altera  o significado de tudo  que ele já leu, tornando mais profundo seu conhecimento dos livros, das gentes e da vida."
  Vale ressaltar que o leitor é alguém que corre menos riscos de ser ludibriado pelos discursos sociais que, a ferro e fogo, querem ditar as regras para um viver padronizado. O leitor competente tem mais chances de saltar fora dos moldes impostos e traçar rumos próprios e, quiçá, mais originais para sua vida.
  A leitura clareia o nosso caminho, clareia o nosso entendimento. É como uma tocha acesa; ilumina onde vamos pisar e auxilia para que não pisemos em falso.  Um leitor competente e crítico é um peregrino das palavras. Percorrendo-as, desenvolve um domínio de compreensão. Tal domínio, ou destreza, capacita-o  para se situar diante de  discursos massificantes. O domínio sobre as palavras, que a leitura pode facultar, é uma proteção contra todas as falas sociais afeitas à escravização das mentes e dos  corpos.
  É fundamental que o cardápio de leitura seja o mais variado possível e inclua diferentes gêneros textuais  como bulas, notícias de jornais, revistas, internet, códigos de leis, poesia, contos, crônicas, romance, Curriculum vitae, e-mails, cartas, ofícios, história em quadrinhos. Há que se oferecer farto e diversificado material para a criação de uma significativa histórias de leituras de crianças, jovens ou adultos.
 Cabe destacar, em especial, o texto literário como o grande aliado da formação leitora. A literatura dialoga com o imaginário, com as regiões lúdicas do espírito, com a sensibilidade do leitor e, por isso, mais facilmente consegue criar laços afetivos com os livros e a leitura. Assim, a literatura é um grande  portal lúdico que se abre para ofertar os finos repastos da ficção, em narrativas e poesia , tanto aos que iniciam a caminhada de leitura, como aos que já a tenham consolidado.
  O texto literário oferta uma leitura sensível do mundo através da palavra artística, que é uma palavra carregada de significados simbólicos. É enriquecedor oferecer literatura,   sempre, em qualquer projeto de leitura e formação de leitores que se queira fomentar..
 A literatura é uma forma de ler e conhecer o mundo através da razão sensível. Os universos literários dialogam com a subjetividade do leitor, nutrem o sonho,  dão a mão para a humana travessia em que precisamos, como diz Yolanda Reys, “explorar o fundo de nós mesmos e, a partir dessa região, nos conectarmos com os outros, iguais e diferentes, que compartilham conosco as raízes humanas”. Ou, dito por Michèle Petit: “não importa o meio onde vivemos e a cultura que nos viu nascer, precisamos de mediações, de representações, de figurações simbólicas para sair do caos, seja ele interior ou exterior. O que está em nós precisa primeiro procurar uma expressão exterior, e por vias indiretas, para que possamos nos instalar em nós mesmos”.
   Quanto mais a oferta de leitura de textos intelectivos e artísticos for rica e variada,  maiores são as chances de formação de um leitor autônomo, capaz de transitar pelo reino das palavras com desenvoltura e manejo lúcido. A leitura é um grande instrumento de libertação, de ampliação de horizontes  e, aqui, soam atualíssimas as palavras de Cecília Meireles: “A  liberdade das almas, ai com letras se elabora”.  A familiarização com os mais diversos textos amplia o domínio linguístico. A   língua é um instrumento de poder. Manejá-la com desenvoltura é cada vez mais necessário para dizer o mundo e  dizer a si  mesmo.   
  O  acesso e o mergulho nos livros, em qualquer suporte, é um direito fundamental dos cidadãos. A leitura deve ser uma questão de Estado, garantida e perpetuada para as gerações presentes e vindouras.

REFERÊNCIAS
LAJOLO, Marisa et al. Leitura em crise na escola: as alternativas do professor. 10. ed. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1991.
MEIRELES, Cecília. Flor de Poemas. Rio de Janeiro: Companhia José Aguilar, 1972
REYS, Yolanda. Ler e brincar, Tecer e Cantar. São Paulo: Pulo do Gato, 2012
PETIT, Michèle. A Arte de Ler ou como resistir à adversidade. São Paulo: Editora 34, 2009


terça-feira, 20 de setembro de 2016

Cantorias de Jardim




Cantorias de Jardim enlaça poeticamente um ramalhete de flores através de poemas inspirados na poesia oral do folclore. O narrador poético conversa com as flores ( rosa, cravo, lírio, amor-perfeito, margarida, jasmim, miosótis e demais flores do feixe poético) , conta seus segredos e magias e, por vezes, chama o leitor para participar da cena poética, ora ofertando-lhe a flor homenageada, ora propondo um jogo de adivinhação, ora advertindo-o para perceber a flor, tal como faziam os cantores peregrinos e singelos de outrora.

domingo, 29 de maio de 2016

Mito, folclore, poesia...

 Resenha sobre Cobra Norato e outras Miragens, no Jornal Contraponto/PB
 Por Neide Medeiros Santos
 Professora, escritora, crítica da FNLIJ na Paraiba. 




"Cobra Norato e outras  Miragens me levou ao encontro de Guriatã: um cordel para menino, do poeta pernambucano Marcus Accioly. Os dois poetas, Bocheco e Accioly, utilizaram-se das vozes dos folcloristas, pesquisadores, estudiosos de nossa cultura e das nossas raízes que alimentam o imaginário popular brasileiro para cantar em versos, com força poética, esses mitos e as lendas". ( Neide Medeiros) 


segunda-feira, 11 de abril de 2016

Folclore sempre!


Em Cobra Norato e outras miragens, realizo um desejo antigo: celebrar  poeticamente algumas figuras do folclore brasileiro, pelas quais tenho grande afeição. Recriá-los, em versos, é um modo de regar raízes muito caras, criadas a partir de vivências com as histórias destes graciosos personagens do repertório oral brasileiro.

Estes “amigos de infância”, ( Saci, Curupira, Boitatá, Mula-sem-cabeça, Iara, Uirapuru, Malazartes ...), com seus muitos encantos, habitam lugares de honra nos assentos da memória. Minha gratidão aos mais velhos de minha infância que, com graça e singeleza poética, me  contaram sobre estas encantadoras miragens.




Criados pela imaginação poética dos povos  do campo e da mata, as figuras do folclore brasileiro, homenageadas nesta obra, desafiam o tempo e seguem com  brilho próprio,  pródigas em sortilégios e encantamentos.
Homenageá-las, em verso ou prosa, é um modo de regar raízes caras à memória e, também, uma forma de cultivo de parte de um repertório imprescindível da cultura oral brasileira.
E vem o  brincante  Saci, o atento Curupira, o valente Negrinho do Pastoreio, a assustadora  Pisadeira,  o belo Cobra Norato, o luminoso   Caboclo D’água,  a esvoaçante Iara, a reluzente mula-sem-cabeça,  o esperto Pedro Malazartes, o melodioso Uirapuru, a alva Mani, o incandescente Boitatá, a indizível mula-sem-cabeça, e outras encantadoras miragens, celebradas em versos, com singelas letras de sincera afeição. 


sábado, 26 de março de 2016

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

De flor em flor...

                



Linda e sensível  resenha sobre Cantorias de Jardim,  assinada pela pesquisadora Mercedes Fernandes, no blog LIVROS PARA TODAS AS IDADES:



(...) "A simplicidade que me tocou é diretamente proporcional à complexidade de sua composição poética, seja na profundidade dos temas como na afetividade mágica da narrativa folclórica que nos remete a intimidade de cada flor descrita.
 Adorei cada poesia: em títulos simples dos nomes em flor tais como “Lírio”, “Camomila”, “Hortência”,” Camélia”, “Violeta” e também das frases que provocam sentimentos e curiosidades tais como: “O que tem a rosa?”,  “Onde está a Margarida?”
                                                                                      Mercedes Fernandes





quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

Leitura literária - jovens leitores



 "Olha a Cocada! -  enlaces sobre jovens leitores e leitura literária a partir dos estudos de Michèle Petit" - um estudo de Fabiano Tadeu Grazioli e Rosemar Coenga.
Publicado na Revista LITERARTE (USP)





Link para a Revista LITERARTE:







segunda-feira, 19 de outubro de 2015

Selfie da poesia



A professora Viviane Sitniewski, da Escola Viver e Conhecer, em Capinzal SC, fez um trabalho lindo com poesia nos sextos anos. Primeiro ela pediu aos alunos para trazerem um poema que fizesse parte da memória literária deles. Quem não tinha essa memória poética podia pesquisar  na biblioteca real ou virtual  e ler para a classe um poema de sua preferência. Assim, vieram para a roda Mário Quintana, Cecília Meireles, Fernando Pessoa, Elias José e Eloí Bocheco.
Como atividade de encerramento das vivências com poesia, a professora Viviane criou uma atividade chamada “Selfie da poesia”  em que fez a pergunta: “ “Se a poesia fosse tirar uma selfie, o que ela registraria”?
Além de explicarem por que há poesia na imagem, os alunos tiraram fotos de lugares da cidade, de flores, de amigos, de paisagens, de sol,  e até da capa do livro Casa de Consertos. 
A selfie da poesia foi um sucesso, como podemos ver pelas imagens e textos. 


























sexta-feira, 28 de agosto de 2015

Nos moinhos da imaginação

                                 
     
Menção honrosa no Concurso de LIJ da Companhia Editora de Pernambuco em 2011


 Nos moinhos da imaginação

    por Daniela Bunn (UFSC)         
(Doutora em Literatura) 

  Moro em moinhos desde que nasci, há 12 anos. Moinhos é um lugar quieto  durante a semana e movimentado aos sábados e domingos por causa da visita das pessoas, de perto ou de longe, que vêm conhecer o moinho d´água, perto do rio, e o moinho de vento do alto do morro. (BOCHECO, 2011, p. 7)

  Dois velhos moinhos contam suas histórias. Com eles, a história de seus moradores e de suas lendas populares. Ao bordar palavras, nesta narrativa que roda feito moinho, Eloí Bocheco, mais uma vez, nos emociona ao falar de amor, de sonhos, de relações familiares que ganham mais vida com as ilustrações de Pedro Zenival. Os moinhos, o de vento e o d´água, além de serem os grandes pontos de referência da cidade, servem também de palco para histórias de fantasmas, causos de assombração, namoros, brincadeiras de crianças.
   Leonardo, narrador em primeira pessoa , conta sua história, sua relação com a mãe, doceira, que sonhara em ser aeromoça; com o pai, que “é do tipo que gosta de casar um monte de vezes”; com a vizinha, escritora, e com seu primeiro amor, Natália. O livro fala de relações desfeitas, partidas e reencontros. Os personagens da cidade são bem descritos e caricaturados por Leo. O livro é permeado de cultura, referências  literárias, filosóficas e saberes populares. Doces misturam-se com os versos de Camões, de Fernando Pessoa, de Virgilio, de Tomás Antônio de Gonzaga e encontram-se ainda com Rubem Braga, Elisa Lucinda, Manuel Bandeira, Adélia Prado.
  Belas imagens são descritas, como: “soltar a alma pra brincar”, “cultivar palavras em canteiros”, “lugares transbordando histórias vividas”, “guardião de memórias”, “morrer de amor”, expressões que fazem nossa imaginação girar como um moinho. Os ensinamentos da mãe, na cozinha, servem também para a vida, como pergunta Leo, afinal, “A vida é como um docinho coberto de glacê que a gente não sabe o que tem no miolo?” (BOCHECO, 2011, p. 14).
  No fim do livro, Bocheco ainda nos presenteia com um belo desfecho cheio de palavras bordadas de sabedoria, rios que correm dentro das histórias e campos de amoras laçadas.
Borda-me o destino em qualquer pano.
(BOCHECO, 2011, p. 64)


Referências
BOCHECO, Eloí. Roda Moinho. Ils. Pedro Zenival. Recife: Cepe, 2011. 68 p.


RODA MOINHO, em e-book, na Amazon:

http://www.amazon.com.br/Roda-Moinho-Elo%C3%AD-Bocheco-ebook/dp/B014A59M7C/ref=sr_1_1?s=books&ie=UTF8&qid=1442496547&sr=1-1&keywords=Roda+Moinho


terça-feira, 30 de junho de 2015

Leia comigo!

                           
                     
Professora Joelma Magrineli Susin e a filha Eduarda - leitura compartilhada do livro Beatriz em trânsito.


Capítulo: Adeus, Sam!  ( Páginas 53-55)

Samuel não chegou  a ler o que escrevi em resposta a este seu último e-mail.  De vez em quando releio tudo que escrevemos um ao outro, e posso ouvir ele dizer, de viva voz, o que tá escrito. Meu ouvido fica escutando, escutando a voz boa do Sam me contando ou explicando coisas de livros e de gentes, e dos progressos dele com as pernas.
  Sento na varanda pra esperar a boca da noite soltar os pirilampos pra passearem. Nunca vieram tantos pirilampos como agora, como coisa que querem me ajudar a tomar conta da saudade de Sam.
  Às vezes me sento na varanda e imagino o Sam chegando, ele sozinho, sem a cadeira, em cima dos dois pés. A gente se abraça e ri um monte.  E ele diz: eu não disse que eu já vinha? E aí vai vindo todo mundo ver que algazarra é aquela na varanda e fazem a maior festa pro Samuel. Fazem tanta pergunta que eu tenho que dizer, calma, gente, o Sam vai ficar as férias todas aqui, perguntem devagar, por favor.
  Depois correm todos buscar algum agrado pro Samuel; meu tio Pedro traz um prato de uvas pretas, o Eduardo traz carambolas, a minha vó oferece bolo, a Leonor corre botar a rede pra ele descansar da viagem longa. A Rosana chega da cidade, pula da caminhonete e abraça o Sam com altos risos de alegria de chegada; ele até se atrapalha com tanta atenção. Depois a gente bota a bagagem dele num canto da sala, sai correndo pra lagoa verde e só volta quando escurece. E todo dia é a mesma coisa: só voltamos pra casa pra fazer as refeições.
  Ou se não, ele aparece nos meus sonhos; vem andando e rindo, e me abraça e pergunta de todo mundo. No sonho, ele tá vivo, e eu nem lembro que ele foi atropelado, em cima da faixa de pedestres, por um motorista bêbado; nem que ele e as muletas voaram para longe.
  _ Você não respondeu meu último e-mail – ele me diz.
  _  Respondi, sim, mas o aparelho tava ruim, não tava enviando as mensagens, e a resposta tá guardada na caixa de saída.
  _ Você  vai deixar essa mensagem na caixa de saída pra sempre, Bia? Voc~e precisa dar um jeito de mandar ela pra mim.
  Aí conto que li O Jardim Secreto que ele citou no e-mail e falo do tanto que esse livro cobre a gente de verde, de pétala de rosa, de canto de passarinho, de música de abelha, de cheiro de flor silvestre...
  _ Ah, que bom que você leu esse livro, Beatriz! Eu tô indo embora justamente pra esse jardim secreto.
  _ Como? Se o jardim secreto é do Colin, do Bem, da Mary e do Dickon?
  _ Eu li o livro, então, o jardim secreto é meu também.
  _ Você não volta nunca mais?
  _ Nunca mais!
  _ Ah, não, não pode ser pra  nunca mais. Tinha que ser só de passagem... “ a passagem dá passagem, mas é só de passagem”, você não lembra?
  _ É quer agora vou viver pra sempre, Bia, então escolhi morar num jardim secreto, entende? Me diga: existe melhor lugar pra se viver pra sempre do que um jardim secreto?
  _ É, acho que não existe mesmo. No dia em que eu for viver pra sempre eu também vou escolher um jardim secreto pra morar, e aí a gente vai poder se encontrar de novo, não é?
  _ Sim, vamos nos encontrar no jardim secreto um dia... Até lá, procure ser feliz, Bia, e não esqueça tudo que conversamos. Sabe aquela tua ideia de ser arquiteta pra arquitetar umas coisas legais para as pessoas com deficiência poderem ir e vir no mundo? Se você virar mesmo arquiteta, não esqueça disso, tá?
  _ Não vou esquecer. Nem que eu não vire arquiteta, eu nunca vou esquecer, Sam. Você promete vir, de vez em quando, contar como é viver num jardim eterno?
  _ Prometo que  venho. Você vai ouvir a flauta... aí vai saber que sou eu que tô vindo...
  _ A flauta?
  _ É. A flauta do Dickon, de encantar animais. Vou aprender a encantar animais, principalmente os que mais me encantam, que nem as cutias e os esquilos.
  O Sam vai indo, e dando tchau com a cara de “que pena que a gente tem que se separar” e vai sumindo, sumindo no final do meu sonho.


BOCHECO, Eloí Elisabete. Beatriz em trânsito. Belo Horizonte: Dimensão, 2006, P. 53-55

terça-feira, 10 de março de 2015

Todos os passarinhos...

O poema CANTORIAS, do livro Tá pronto seu lobo? e outros poemas, na contracapa da Revista Ciência Hoje das Crianças - edição de fevereiro









sábado, 21 de fevereiro de 2015

Poesia: alimento e abrigo

Tá pronto, seu lobo? e outros poemas no Caderno de Cultura
do Jornal Contraponto - PB
Resenha da professora Neide Medeiros Santos







quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

Dentes de leite e outros mimos...






A leitura do poema  Dente de Leite, do livro Tá pronto, seu lobo?  inspirou este texto lindo da professora Rosane Maria Kreuch, de Florianópolis. Puxei do  blog da professora Rosane: Não corra, margarida,  não corra!

MEU PRIMEIRO
DENTE DE LEITE
CAIU DE DIA.
JUNTEI O DENTE
E GUARDEI NA BACIA.

O SEGUNDO DENTE
CAIU NO QUINTAL.
NASCEU UMA ROSEIRA
NO MESMO LUGAR.

O TERCEIRO DENTE
CAIU NO RIO.
FOGE, PEIXE,
QUE O DENTE TE VIU!

O QUARTO DENTE
ARRANQUEI COM LINHA
E JOGUEI NO TELHADO
PARA A ANDORINHA.

MEU QUINTO DENTE
CAIU EM DEZEMBRO.
DOS OUTROS DENTES,
JÁ NÃO ME LEMBRO.

O poema acima, que ilustra as páginas vinte e oito e vinte e nove do livro "Tá pronto, seu lobo?, da escritora catarinense Eloí Bocheco, é um exemplo de que a arte não pode ter uma função pré-estabelecida mas deve provocar os sentimentos. Para as crianças, considero lindo quando a arte provoca empatia, como no caso da poética troca dos dentes. 

Uma das características da arte é não ser literal. Outra é não ser possessiva nem endereçada. Ou seja, ao autor não é garantido que sua obra tenha uma única interpretação ou um único significado. Ao colocar uma obra para o mundo, o criador sabe que não terá mais controle sobre ela. Foi assim, lendo o poema  "Dente de Leite" e pensando no que eu gostaria de escrever a respeito dele, que lembrei de algo muito estranho:  há mais ou menos dezenove anos guardo os dentinhos de leite da minha filha (difícil acreditar, não é mesmo? Tem foto aí embaixo pra comprovar). Os dentinhos ficaram guardados numa caixinha, como se fossem um tesouro!

A leitura do poema e o encontro com estas lembranças me fizeram perceber a paradoxal relação entre o terno e o absurdo nisso tudo. Recordei, inclusive, que na época da troca de dentes da minha filha eu me disfarçava de "fada do dente" e deixava cartinhas de agradecimento com um dinheirinho sempre que ela fazia a gentileza de deixar o dentinho embaixo do travesseiro.  A minha filha nunca deu importância para estas coisas que eu inventava... e até hoje considera tudo uma grande bobagem. Sei lá, penso que ela tem outro jeito de lidar com estes assuntos. Eu, somente agora vejo aquele meu comportamento com estranheza.

Ainda com o poema em mãos resolvi que é chegada a hora de dar um destino para os dentes de leite. Algumas leituras que fiz (aqui e aqui) me ajudaram a perceber que a fada do dente foi repaginando-se ao longo dos anos e que,  atualmente, o legal é que as crianças doem seus dentinhos para alguma faculdade de odontologia onde eles serão usados para a realização de pesquisas científicas e como fontes de células-tronco.

Voltando a minha caixinha do tesouro, digo, dos dentes de leite, descobri que há apenas dezessete dos vinte que deveriam estar guardados lá. Felizmente, a doação pode ser feita com qualquer quantidade de dentes e em qualquer estado de conservação. Neste endereço há mais informações sobre o envio das preciosidades e o destino certo da minha caixinha. 

Concluindo, desapego é o que minha filha parece saber vivenciar desde pequena e eu ainda estou engatinhando nesta arte. 


                        

Link do blog  Não corra, margarida, não corra!