quarta-feira, 5 de setembro de 2012

Quando a imaginação dá as tintas....

                                                         

 A menina que podia voar 
 Vinicius Linné  ( Habilis, 2012)


  Em A menina que podia voar, o autor, Vinicius Linné, surpreende já na dedicatória:“para uma borboleta, uma mariposa e um mandarim”.
A história é narrada, ou melhor, cacarejada por uma galinha mais velha às galinhas mais moças.  Não se trata, contudo,  de uma história sobre  galinhas, mas sobre gente.
A menina que podia voar e um dia voou,  é aluna de uma professora autoritária, que separou a classe em “aviões”, “carros” e “carroças”, outro nome para fortes, médios e fracos.   Estigmatizada como lenta porque não atende às expectativas da professora, a menina e seu amigo, também tido como lento, sentam-se na última fila e, deles,  nada espera a “mestra”.
De tanto ouvir que é lenta, a menina incorpora essa imagem. Porém, ela tem à sua disposição os campos  imensos  da imaginação. Nesse território de liberdade, o estigma não a alcança.  Levada pelo vento, voa para muito longe do chão. Entre passarinhos e borboletas brinca de esconde-esconde, pega-pega e passa-anel. Chega à fábrica de tinta das nuvens e recolhe tintas de todas as cores. Quando volta à terra pede à  madrinha para pintar um retrato dela, da  menina, com as tintas que trouxera do céu.  Mas a madrinha não acreditou nos voos da menina e nem  que as tintas que trouxera eram tintas celestes.
Perante a madrinha não conseguiu voar. Mesmo que voasse, ao que tudo indica,  a mulher não enxergaria, pois tem o  olhar viciado na rotina, pouco afeita a voos e sobressaltos. Porém,  a sós com sua imaginação, a menina voou e brincou de viver em outros mundos, onde o que é tocado pela linguagem se transforma em possibilidade de ser.
Um texto forte que traz um olhar sobre a diferença e  o sofrimento de quem não cabe nos padrões eleitos como “normais”, aceitáveis ou desejáveis pela sociedade de humanos. É também um texto que celebra os poderes da imaginação, como chão mágico onde cresce o sonho e a vontade de viver, a despeito da realidade esmagadora como  a da personagem.  Felizmente, “ela podia voar”....

Um comentário:

V. Linné disse...

Obrigado pelo olhar e pela sensibilidade.